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De onde vêm as 72 virgens?

deldebbio | 23 de junho de 2008

Supondo que a religião islâmica realmente assegure 72 virgens aos que morrem em nome de Alah, será que esta graça está reservada aos mártires ou é estendida a todos os fiéis que adentram o paraíso? E de onde vêm 72 mulheres virgens para cada homem do reino dos céus? São as almas das mulheres que morreram imaculadas que vão ao céu servir os mártires? Se não, o que reserva o céu às mulheres mártires? maridos perfeitos que nunca se esquecem de abaixar a tampa da privada? Pensando em todas estas questões decidi pesquisar um pouco mais sobre o paraíso islâmico.

Comecei pelo Alcorão. O livro máximo da religião islâmica não deixa dúvidas de que o paraíso islâmico é um lugar bastante sensual, mas nada é dito sobre a quantidade de virgens que aguarda os eleitos.

“E se deitarão sobre leitos incrustados com pedras preciosas, frente a frente, onde lhes servirão jovens de frescores imortais com taças e jarras cheias de vinho que não lhes provocará dores de cabeça nem intoxicação, e frutas de sua predileção, e carne das aves que desejarem. E deles serão as huris [virgens] de olhos escuros, castas como pérolas bem guardadas, em recompensa por tudo quanto houverem feito. (…) Sabei que criamos as huris para eles, e as fizemos virgens, companheiras amorosas para os justos.”
Alcorão, surata 56, versículos 12-40.
(todas as traduções deste texto foram feitas a partir do inglês)

São inúmeras as passagens como esta que mencionam a existência no paraíso de jóias, criados jovens e cheirosos, vinho (uma extravagância, já que o islã proíbe consumir bebidas alcoólicas em vida), rios de leite, rios de mel, rios de água (que costuma ser coisa preciosa nos países muçulmanos), frutas abundantes e moçoilas virgens para fazer “companhia” aos justos… Comparado ao paraíso cristão, com seus anjos assexuados de aparência andrógina tocando harpa e entoando cânticos (quando não estão em missão para destruir alguma cidade ou coisa assim), o céu islâmico parece o Club Med dos paraísos.

Só que diferentemente da Bíblia, que é a única fonte autenticada pela Igreja das palavras de Deus, na religião islâmica o Alcorão é complementado pelos hadiths, uma coletânea de histórias sobre tudo o que supostamente disse ou fez o profeta Maomé durante sua vida, que circularam no boca a boca por mais de um século até serem redigidas em sua forma atual. É aí, nessa barafunda de textos, às vezes antagônicos, que vamos encontrar mais detalhes sobre o paraíso islâmico, incluindo o número de virgens com que os eleitos são agraciados:

“A menor recompensa para aqueles que se encontram no paraíso é um átrio com 80.000 servos e 72 esposas, sobre o qual repousa um domo decorado com pérolas, aquamarinas e rubis, tão largo quanto a distância entre Al-Jabiyyah (hoje na cidade de Damasco) e Sana’a (hoje o Iemem)”
Hadith 2687 (Livro de Sunan, volume IV).

Se esta é a menor recompensa que aguarda os felizardos no paraíso, então é certo que os servos e as virgens não foram parar lá por mérito. Quem sabe fossem candidatos ao inferno (não dizem que “é melhor reinar no inferno que servir no paraíso”?). No caso das virgens isto faria todo o sentido, já que a rotina delas no céu não é moleza; sobre isso escreveu Al-Suyuti, um renomado comentador do Alcorão e estudioso dos hadith, no século XV:

“Cada vez que se dorme com uma huri descobre-se que ela continua virgem. Além disso o pênis dos eleitos nunca amolece. A ereção é eterna. A sensação que se sente cada vez que se faz amor é mais do que deliciosa e se você a experimentasse neste mundo você desmaiaria. Cada escolhido se casa com setenta huris, além das mulheres com que se casou na terra, e todas têm sexos apetitosos.”

Para as virgens o paraíso islâmico é mais ou menos como uma versão pornô do mito de Prometheus (aquele do titã que tinha seu fígado devorado todos os dias por uma águia), só que é o hímen das jovens donzelas, e não o fígado do titã, que se regenera perpetuamente.

Se você tem uma ereção permanente e o resto da eternidade nas mãos algumas dezenas de virgens não devem bastar, por isso o paraíso islâmico conta ainda com um local que, cá embaixo seria chamado de “bordel”, mas que no paraíso islâmico chamam de “mercado”. Segundo os hadith, Maomé teria dito:

“Existe no paraíso um mercado onde não há compra ou venda, mas homens e mulheres. Quando um homem deseja uma mulher ele vai até lá e tem relações sexuais com ela.”
Al Hadis, Vol. 4, p. 172, No. 34

Os cristãos, a quem devemos a noção agostiniana de que o mundo físico é impuro, gostam muito de apontar o dedo na cara dos muçulmanos e dizer que o paraíso deles é “liberal” demais. Aí, é a vez dos muçulmanos dizerem aos cristãos que se eles querem mesmo falar sobre sacanagem em livros sagrados é bom que se lembrem que têm teto de vidro. É impressionante quanta energia é gasta na internet nesta troca de citações porno-sacras entre cristãos e muçulmanos; eu imagino que jovens beatos de ambas as religiões aprendam bastante sobre estupro, pedofilia e prostituição nestes sites.

Bem, na defesa dos muçulmanos é justo dizer que como os hadith foram escritos muito tempo depois da morte de Maomé, nem todos eles são considerados genuínos pelos estudiosos islâmicos (segundo eles, por exemplo, o trecho acima é falso). Só que mesmo as passagens consideradas verdadeiras podem ser bastante embaraçosas; em algumas delas o constrangimento dos tradutores fez com que a formosura das virgens fosse minguando até que seus detalhes anatômicos desaparecessem por completo. Eis um bom exemplo:

Versão 1 – por Arberry
Para os tementes aguardam um lugar seguro, jardins, vinhedos, donzelas de seios arredondados (maduros) e um copo transbordante de vinho.

Versão 2 – por Yusuf Ali
Para os justos haverá a satisfação dos desejos em seu coração, jardins e vinhedos, companheiras da mesma idade e um copo cheio de vinho.

Versão 3 – por Rashad Khalifa
Os justos merecerão uma recompensa. Jardins e uvas. Esposas magníficas. Drinques deliciosos.
Surah an-Naba’ (78:31-34)

Mas existe uma boa chance de que os tradutores islâmicos nunca mais precisem dissimular a exuberância das virgens. Um livro publicado recentemente na Alemanha e muito bem recebido pela comunidade científica, “Die Syro-Aramaische Lesart des Koran” (“Uma Leitura Sírio-Aramaica do Alcorão”), do professor de línguas antigas Christoph Luxenberg, defende a tese de que muita coisa faria mais sentido nos textos sagrados se os tradutores levassem em conta que o Alcorão não foi escrito apenas em árabe, mas num mix de antigos dialetos aramaicos. Por exemplo, a palavra “hur”, que em árabe quer dizer “virgem”, em sírio significa “branca”. Assim, segundo Luxenberg, as “castas huris de olhos castanhos” descritas no Alcorão seriam na verdade “uvas brancas secas” de “clareza cristalina”, uma iguaria bastante apreciada naquela época. Dá para imaginar a decepção dos mártires? Deve ser como comprar uma passagem para um cruzeiro de solteiros e ao embarcar descobrir que não vai ter mulher…

No final o problema das virgens vai ser resolvido com a troca de uma única palavrinha. Nenhum candidato a homem-bomba vai ficar mesmo muito entusiasmado em abandonar esta vida quando souber que sua recompensa por morrer abraçado em dinamite será um suprimento vitalício de passas.

Mas é claro que esta não deveria ser a solução. A continuidade da civilização como a conhecemos não deveria depender da tradução de uma palavra num livro sagrado, ou de distinguir o que de fato disse um homem denominado profeta das fantasias eróticas de um bando de velhos babões. Melhor seria se não houvesse pessoas no mundo dispostas a acreditar literalmente em histórias escritas há milhares de anos, numa época em que a maioria das pessoas sabia tanto sobre o mundo natural quanto provavelmente sabe hoje uma criança da sétima série, e tinha os mesmos temores e superstições infantis de uma criança da quinta série.

Retirado de: http://dragaodagaragem.blogspot.com/

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Islamismo
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23 Responses to “De onde vêm as 72 virgens?”

  1. Destino dos Perpétuos disse:
    23 de junho de 2008 às 19:39

    A irônia do autor do texto é música para meus ouvidos, todavia, não ou defensor ou crítico de religião, afinal todas as formas de culto ao divino tem a mão sórdida do homem para deturpar seus princípios…!

    Belo texto, ótimo conteúdo…!

    Adorei a mensagem aos fanáticos do Islã…!

    Responder
  2. Sávio disse:
    23 de junho de 2008 às 20:47

    Er… priapismo provocado por uvas passa pelo resto da eternidade é mesmo uma recompensa? o.o’

    Responder
  3. Padre Judas disse:
    23 de junho de 2008 às 22:35

    Hahaha… adorei o texto, muito cômico.

    Mas acho que não haveria sofrimento para as jovens. O primeiro trecho apresentado diz que as huris foram criadas com esse objetivo – não são humanas, só parecem humanas. Por isso, não significa que vão sofrer com a perda da virgindade ou algo assim. O mesmo pode ser dito dos servos.

    Só um detalhe. Falou. :)

    Responder
  4. Gustavo Araujo disse:
    24 de junho de 2008 às 2:47

    Muito bom texto.
    Lembra-me muito do caso dos macacos:

    Tinham 5 macacos em uma jaula. Na jaula tinha 1 escada. No topo da escada era colocada 1 banana. Um macaco subia e pegava a banana quando, imediatamente, uma ducha de água fria era lançada sobre os outros 4 macacos que ficaram no chão.

    Feito isso repetidas vezes, os macacos que ficavam no chão começavam a espancar o macaco que tentasse subir, logo nenhum macaco tentava mais subir.

    Substitui-se 1 macaco da jaula por outro que nunca tinha visto a cena. Logo na 1a vez, o macaco novato tenta subir quando é agarrado e espancado pelos demais. Tenta novamente logra fracasso mais uma vez… Ele tenta mais uma vez e não consegue. Logo aprende que não deve subir na escada.

    Troca-se outro macaco antigo (dos iniciais) por outro que nunca viu o teste. Obtém-se o mesmo resultado: um macaco-espancador.

    Substituem-se, paulatinamente, os demais macacos, de forma a se obter apenas macacos que nunca levaram 1 jato de água fria sequer, mas são doutrinados para dar porrada em quem tente subir na escada.

    Após concluída a pesquisa, pergunta-se a um macaco: Por que vocês dão porrada no macaco que tenta subir?

    Macaco: – Não sei, quando eu cheguei já era assim.

    Parabéns, DelDebbio, pela (n-ésima+2) vez

    Responder
  5. De onde vêm as 72 virgens? « Web Digerida disse:
    24 de junho de 2008 às 13:42

    [...] Veja mais [...]

    Responder
  6. Daniel disse:
    24 de junho de 2008 às 14:46

    Hahahaha engraçado………
    As pessoas realmente são gado, os caras se matam e nem sabem o porque!!
    Vão comer uvas passas no vale dos suicidas.

    Responder
  7. Bruno disse:
    24 de junho de 2008 às 19:06

    Ola Sr. Del Debbio

    Anteriormente foi disponibilizado uma “coletânea” em pdf das suas colunas postadas no sedentário.
    Seria possível tal produção novamente?
    Facilita deveras o estudo e o aprendizados dos “noobies”, como eu ^^

    Grande abraco
    pax

    Responder
  8. EduardoSouza disse:
    24 de junho de 2008 às 19:54

    Eu ri bastante.
    O tom irônico é bem legal, e a lição que ele passa no final é interessantíssima.
    Bom texto, sem dúvida.

    Responder
  9. Melquisedeque disse:
    25 de junho de 2008 às 11:53

    Já passou da hora de ser desmistificadas todas as ilusões criadas para controle das massas. Excelente, as atitudes de tradutores como Luxenberg e muito bom texto, continue assim e não vejo a hora de ler sobre o inferno de Dante, as 49 portas…

    abraços.

    Responder
  10. Patrício disse:
    25 de junho de 2008 às 17:55

    Creio que esse “mito” venha de muito antes do islamismo “estruturado”…Mesmo do próprio Maomé.Ele lembra bastante narrativas fantásticas antigas. Aliás, é engraçado notar as semelhanças entre o paraíso muçulmano e o Valhala nórdico. Os bravos nórdicos também teriam direito as melhores maneiras de saciar usa fome, luxúria e sede de sangue…

    Responder
  11. Jamiél R.S.S. disse:
    26 de junho de 2008 às 6:33

    Acredito que o fanatismo do Islã é tão proximo do Evangelismo do Catolicismo, e até de muitas ordens, Pois se eles se baseiam em textos milenares todos as outras culturas tambem!!!
    Asemsibilidade de cada um é quem comonda avantade e a fé( ou crença) hoje somos capazes de pesar o que é real e o que é fantasia ou o que é fato e o que é uma tradução mal feita.
    Muita Luz a todos
    R.S.S.

    Responder
  12. Kk disse:
    26 de junho de 2008 às 16:25

    “The power of the magic ! The power of the spell ! Not to serve in heaven ! But one day rule in hell !”

    Manowar rulez ! Hahuahuaa.

    Responder
  13. Kk disse:
    26 de junho de 2008 às 16:29

    A propósito, mesmo as partes adicionadas após a morte de Maomé, não deveriam ser levadas simbolicamente ?

    Tipo sufismo.

    Responder
  14. Hermes - Metais, Ervas e Pentagramas | Sedentário e Hiperativo - Blog disse:
    26 de junho de 2008 às 19:33

    [...] James Randi e seu famigerado desafio paranormal. – De onde vêm as 72 virgens? – O Grande Computador Celeste – parte III – Princípios da Alquimia, – Miasma e [...]

    Responder
  15. Petch disse:
    27 de junho de 2008 às 0:56

    Pra mim essa historia de “Islamismo” sempre foi um jogo politico.
    Basta saber que Maomé fundou o Islamismo depois de conhecer o império romano do oriente, e varias ideias dele foram influenciadas pelo catolicismo, como a crença em um único Deus, que é espiritual, e a continuidade da vida após a morte. (entre muitas outras semelhanças tão constrangedoras quanto as mostradas em Zeitgeist sobre o catolicismo)

    DD, posta logo algum texto sobre os templários, pq eu vou aprender sobre isso na próxima unidade, e quero trocar ideias com a Professora.

    Responder
  16. Th disse:
    27 de junho de 2008 às 11:52

    O texto está bom, apenas o último paragrafo é ridiculo, na antiguidade sabiam muito sobre o mundo natural sim, até mesmo mais do que hoje, isso é falta de estudo sobre os egipcios, maias, astecas, incas e até mesmo os gregos

    Responder
    • HHHelderBeast disse:
      7 de junho de 2010 às 19:39

      Esse texto foi escrito por um cético. Você não esperava mesmo que ele falasse sobre o conhecimento dos antigos, não é? Afinal, foi tudo superstição ou coincidência mesmo… ; )

      Responder
  17. Harry Potter e as Núpcias Alquímicas | Sedentário & Hiperativo disse:
    4 de agosto de 2008 às 1:01

    [...] – Posts da semana no meu Blog: – O Mito da Fênix – Grandes Iniciados – Lao Tsé – As Pirâmides Submersas no Japão – A Maconha e as otoridades, – Grandes Iniciados: Apolônio de Tiana, – Teoria da Magia II, sistemas Mágicos, – James Randi e seu famigerado desafio paranormal. – De onde vêm as 72 virgens? [...]

    Responder
  18. Erlyson disse:
    11 de novembro de 2008 às 20:58

    Discordei do comentário sobre crianças de sétima série… Há muitas delas que têm uma maturidade bem grande.
    Aos 11 anos (sétima série e primeira eucarístia) foi quando eu comecei a desconfiar das verdades que a igreja prega (Quando comecei a estudar cruzadas, inquisição e outras coisas da igreja).

    Responder
  19. The Corporation | Sedentário & Hiperativo disse:
    26 de novembro de 2008 às 21:46

    [...] Mitologia – A História de Mithra – Beltane, a Fogueira de Belenos – A História de Ganesha – A Deusa Demeter e os Mistérios Eleusis – O Mito da Fênix – De onde vem as 72 Virgens? [...]

    Responder
  20. jose ricardo disse:
    7 de maio de 2009 às 14:42

    O paraiso islamico tem carne pra comer? La a morte ira continuar? Paraiso e onde tudo e eterno, entao nada deveria morrer. De qualquer forma nao devemos supor que todo muculmano e mal.
    NEM TODO terrorista E ARABE
    NEM TODO ARABE E MUCULMANO
    NEM TODO MUCULMANO E FANATICO
    NEM TODO FANATICO E terrorista.
    Quanto a questao de que os livros antigos nao servem discordo no tocante a Biblia, pois se ela esta errada, entao posso matar, roubar, mentir, e.t.c. . Alguns podem dizer; Algumas coisas da Biblia servem outras nao. Pergunto? Qual parte da Blblia serve e qual nao serve? Que criterios sao usados para saber-se disso? Quem criou esses criterios? Esses criterios sao baseados em que?

    Responder
  21. ana lima disse:
    17 de fevereiro de 2011 às 1:46

    ADOREI!!!! MAS QUER SABER? MORRO DE MEDO SÓ DE PENSAR QUE ESSA IGNORÂNCIA ESTÁ SE ESPALHANDO…..
    ÀS VEZES PENSO: SE ELES SÃO OS MELHORES PORQUE QUEREM NOS CONVERTER? SOBRA MAIS LUGAR SÓ PRA ELES NO PARAÍSO.

    Responder
  22. BRRyushi disse:
    16 de maio de 2012 às 2:16

    Tio Marcelo,
    Pensei que vc ia falar da relação com o número cabalísto 72 que é o número de nomes de Deus ou Anjos, não entendo bem do assunto por conceitos confusos entre si…
    Mas pq é exatamente o mesmo número desses nomes cabalísticos???
    Por favor nos explique.

    Abraço.

    Responder

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