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Kimbanda e Quimbanda

deldebbio | 6 de dezembro de 2010

Texto do Edmundo Pellizari sobre a diferença entre Kimbanda e Quimbanda. Existe muita confusão entre os dois termos; eu mesmo já vi textos na net e em jornais de umbanda com estes nomes invertidos ou considerados como se fossem uma coisa só (se não me engano, tem texto meu com essa inversão também). O problema é que, como essas palavras são transliterações, cada autor acaba colocando como acha melhor e a porta para a confusão está aberta. Se alguém achar os termos trocados em algum dos meus textos, dá um aviso nos comentários; eu prefiro ficar padronizado com o trabalho do Edmundo, que é muito sério a respeito dos cultos afro-brasileiros.

Kimbanda significa algo como “cu­ran­deiro” em kimbundu, um idioma bantu falado em Angola. O kim­banda é uma espécie de xamã africano.
O ofício do kimbanda é chamado de “umban­da”…
Todos já ouvimos essa palavra por aqui.

Quimbanda é um culto afro-brasileiro com forte influência bantu e muito influ­enciado pela magia negra européia.

Kimbanda e Quim­banda se confun­dem, mas são cultos distintos e com objetivos dife­rentes.

O kimbandeiro é um membro ativo de sua comunidade, um doutor dos po­bres e intérprete dos espíritos da Natureza. Ético, ele sempre trabalha para o bem, a paz e a har­monia.

O quimbandeiro é um feiticeiro. Nor­mal­mente vive afastado, não se envolve social­mente. Na África, o kimbandeiro faz a ponte en­tre os Makungu (ancestrais divini­zados), os Minkizes (espíritos sagrados da Natureza) e os seres humanos.

Ele entra em transe profundo, incorpora os seres invisíveis que consultam os necessitados e os aconselham na resolução dos proble­mas. Os espíritos no corpo do kimbanda falam, fumam e bebem.

Como autêntico xamã, ele sabe que a mata é um ser vivo que respira, come e sen­te. Ela é densamente habitada por diversos tipos de entidades, que trans­mitem seu conhecimento aos sacerdotes eleitos.
Alguns destes seres se parecem a “duendes”. Eles tem uma perna só, um olhos só ou falta algum braço. Moram dentro da mata e podem cruzar o caminho de algum caçador. Um Ponto Cantado para os exus na Umbanda, diz:

“Eu fui no mato,
oh ganga!
Cortar cipó,
oh ganga!
Eu vi um bicho,
oh ganga!
De um olho só,
oh ganga!”

Ganga vem de Nganga, um dos no­mes pelo qual o kim­banda é conhecido. Nosso querido Saci Pererê é um de­les.

Ele usa o filá (gor­ro) vermelho dos kim­­bandas, o ca­chim­bo dos pretos velhos e o tabaco dos caboclos!

O quimbandeiro centra seu trabalho na figura de Exu, que é um Orixá yoruba e não um Nkizi bantu.

A entidade que se assemelha a Exu entre os bantu é chamada de
Aluvaiá, Nkuvu-Unana, Jini, Chiruwi, Mangabagabana e Kitunusi dependendo do dialeto e da região.

Aluvaiá pode ser “homem” ou “mu­lher” e sua energia permeia tudo e todas as coisas. Ele se adapta muito bem à noção umbandista de exu (entidade masculina) e pomba gira (entidade masculina).

O quimbandeiro também invoca e incorpora as entidades associadas ao culto do magnífico Orixá Exu, os exus e pombas giras. Pode haver sincretismo com nomes como Lúcifer, Asmodeus, Behemoth, Bel­zebu e Astaroth da Cultura Européia.

A visão das entidades também pode mudar… O kimbandeiro invoca as almas dos antigos Tatas (pais espirituais ou sa­cerdotes curandeiros) e Yayas (mães espi­rituais ou sacerdotisas curandeiras).

Estas almas transcenderam o limite da mate­rialidade e da ignorância.
Elas possuem bondade, conhecimento e luminosidade. Algumas não precisam mais encarnar, pois, já evoluíram o suficiente neste mundo.

O quimbandeiro invoca almas de entidades que em vida foram feiticeiros, malandros, mercadores, homens ou mu­lheres comuns, etc…

Na África o sangue é um elemento sacrificial. O kimbandeiro oferece um ani­mal a uma entidade, prepara a carne e entrega a primeira porção ao espírito. O resto do animal, que se tornou agora ali­mento, é compartilhado com a comuni­dade se isto acontece em data festiva.

O quimbandeiro, não está interessado em “sacrificar” (tornar sagrado), ele está preocupado com os poderes mágicos do sangue, vísceras e couro do animal. Por­tanto, teologicamente falando, ele não sacrifica.

As imagens utilizadas no culto do kim­bandeiro são feitas de pedra, madeira e barro. Os artesãos procuram modelar as entidades da Natureza de forma natural e simples. A imagem é consagrada cerimo­nial­mente e uma porção do espírito da entidade passa a habitar a efígie.

Na Quimbanda, na maioria das vezes, são utilizadas imagens de gesso que re­presentam os espíritos aliados. Comu­mente estas imagens tem aspecto aver­melhado, podendo ter chifres ou não.

O kimbandeiro é um agente social. Ele depende da comunidade e a comu­nidade depende dele. Quando aceita um pagamento para seu trabalho, ele retira do mesmo a sua sustentabilidade. Todo mundo sabe e pactua com isso. Não existe abuso. Trocas de mercadorias e favores podem substituir o dinheiro como paga­mento. As pessoas empobrecidas são aten­didas sem nada precisar dar em troca.

As vestes do xamã bantu são normais e naturais. Quando está trabalhando usa filá, guias de sementes, cinturão com amuletos e roupas sóbrias. Três são os pilares do kimbandeiro: amor, honra e caridade.

O universo da Kimbanda é composto por tês mundos que se interpenetram:
- o mundo celeste onde moram os espíritos celestiais e originais (alguns Minkizis e ancestrais divinizados),
- o mundo natural habitado pelos homens e pelos espíritos da natureza (elementais)
- e o mundo sub­terrâneo da morte e dos ancestrais.

O médium na Kimbanda é um canal entre os espíritos e os que precisam dos espíritos. Ele é um instrumento mágico, um servidor da humanidade que pratica um transe profundo, pois, somente ador­mecendo o ego o divino pode fluir.

Os espíritos utilizam o médium com gentileza e cuidado, sem esgotar suas reservas de energia psíquica.

A Umbanda, certamente, bebeu das águas tradicionais da Kimbanda.

Os negros bantus trouxeram sua herança espiritual, legítima, luminosa, ecológica e antiqüís­sima. Oramos para que as antigas almas dos Tatas e Yayas nos ajudem a separar o trigo do joio.

Nzambi primeiro!

Nsala Malekun!

@MDD – Várias pessoas questionaram se a pomba-gira é masculino sob a ótica aluvaiá ou se é um erro. O texto não é meu, eu estou tentando entrar em contato com o Pellizari pra ele me falar se é isso mesmo (e dar uma explicação) ou se foi mesmo erro de digitação. Quando tiver uma resposta eu faço um update.

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25 Responses to “Kimbanda e Quimbanda”

  1. Rafael Freitas disse:
    6 de dezembro de 2010 às 18:36

    Aluvaiá pode ser “homem” ou “mu­lher” e sua energia permeia tudo e todas as coisas. Ele se adapta muito bem à noção umbandista de exu (entidade masculina) e pomba gira (entidade masculina).

    Acho q o segundo parente ta errado, nao precisa aprovar o comentario :)

    Responder
  2. Andréa Giorgini disse:
    6 de dezembro de 2010 às 18:42

    Marcelo,

    no texto acima, 6o.parágrafo, você escreveu:

    Aluvaiá pode ser “homem” ou “mu­lher” e sua energia permeia tudo e todas as coisas. Ele se adapta muito bem à noção umbandista de exu (entidade masculina) e pomba gira (entidade masculina).

    a pomba gira nao seria entidade feminina? ou estou errada?

    Abraços,

    Andréa.

    Responder
  3. Saulo disse:
    6 de dezembro de 2010 às 20:03

    Legal!

    Responder
  4. Lucas. disse:
    6 de dezembro de 2010 às 20:06

    Bem Esclarecedor. Há alguns textos bem interessantes deste autor na net, é só procurar no Google.

    Responder
  5. Bruno Mais disse:
    6 de dezembro de 2010 às 20:42

    Um post aguardadíssimo ! /

    Responder
  6. Allan disse:
    6 de dezembro de 2010 às 21:49

    Olá MDD, muito bom o texto!
    Mas tem algumas coisas que acho que você se confundiu até neste texto.

    Principalmente quando dia que pomba gira (entidade masculina). Não seria entidade feminina?

    Eu nunca estudei nada de Umbanda, Kimbanda ou Quimbanda, então não posso falar muito, nem mesmo corrigir ninguém sobre essas culturas. Foi bom aprender mais um pouco!

    Abraços!

    Responder
  7. Jeff Alves disse:
    6 de dezembro de 2010 às 22:36

    Ótimo texto, bastante esclarecedor.

    P.S: Existe um erro no seguinte trecho:

    Aluvaiá pode ser “homem” ou “mu­lher” e sua energia permeia tudo e todas as coisas. Ele se adapta muito bem à noção umbandista de exu (entidade masculina) e pomba gira (entidade masculina).

    Está se repetindo duas vezes o termo entidade masculina, caracterizando pomba gira como masculina também.

    Responder
  8. Aquiles disse:
    6 de dezembro de 2010 às 22:50

    Muito bom para desfazer a confusão de termos!
    É verdade que as entidades da Quimbanda são as mesmas da Goécia?

    @MDD – Sim e não. Seguem as mesmas linhas, mas não são as mesmas entidades.

    Responder
  9. Paulo Henrique disse:
    6 de dezembro de 2010 às 23:48

    Olá MDD
    Espiritos em geral não tem gênero sexual, correto ? Mas, me parece que a maioria dos espíritos que trabalham em centros espiritas e na umbanda se apresentam como sendo do sexo masculino. Se essa discrepância é real, existe alguma explicação , talvez relacionado a tarefa que desempenham ? Ou somente é o gênero que escolhem no plano astral ?

    Curupira e Boitatá são considerados Espirítos Naturais ?

    Existem muitos espíritos evoluídos que “descendem” dos ciganos; assim como existem de indigenas, marinheiros etc ?

    Obrigado.

    Responder
  10. Anderson Roberto disse:
    6 de dezembro de 2010 às 23:57

    A definição de Quimbanda já tinha visto em Quiumbanda, as duas são a mesma coisa ou o termo é diferente por um motivo ? pomba gira (entidade masculina) ? nos livros do Rubens Saraceni ele define bem esse conceito de exu ser masculino e trabalhar com o vigor e pomba gira ser feminino e trabalhar com o desejo

    Responder
  11. João Carlos disse:
    7 de dezembro de 2010 às 8:10

    Muito bom o texto. Não sabia destas nuances, nem tive a oportunidade de ouvi-la dos amigos desta fé. Parabéns

    Responder
  12. Flávio disse:
    7 de dezembro de 2010 às 9:11

    Marcelo, corrige aqui: “exu (entidade masculina) e pomba gira (entidade masculina).”

    @MDD – nao sei ainda se esta errado ou se é assim mesmo… estamos tentando descobrir.

    Responder
  13. Rafael disse:
    7 de dezembro de 2010 às 10:27

    Parabens! Muito bom o texto, eu mesmo não sabia que existia uma diferença, pensava que fosse a mesma coisa, até aí nada de mais pois sou filho de santo a pouco tempo (o TdC ajudou), na minha casa espiritual o nosso Babalorixa apenas explicou que Quimbanda é o contrário de Umbanda que la (meu “terreiro”) não se faz amarração, é proibido qualquér tipo de cobrança (expulsão do terreiro) etc, até entendo o pai pois se fosse entrar muito no assunto daria confusão aja vista q muitos filhos de Umbanda “velhos de guerra” acham q recebem Orixás (na realidade seus falangeiros) oq é absurdo. Obrigado MDD é continue com o seu ótimo trabalho útil e dificilimo q é o de compartilhar informações sem no entanto como diria um pai pequeno da casa “colocar brinco de ouro em orelha de porco”.

    Responder
  14. Thiago disse:
    7 de dezembro de 2010 às 11:40

    Ola Marcelo na parte de Aluvaiá pode ser “homem” ou “mulher” vc classifica exu como entidade (masculina) e a pomba gira como entidade “masculina” tambem seria FEMININA apenas essa correção ok..excelente texto.
    Abração
    Thiago.

    Responder
  15. Buscador disse:
    7 de dezembro de 2010 às 12:45

    Exus e pombas-giras ambos como masculino?

    Responder
    • Buscador2 disse:
      7 de dezembro de 2010 às 12:47

      Sim, neste contexto Aluvaiá fica claro.

      Responder
  16. Adoniram disse:
    7 de dezembro de 2010 às 12:59

    Exus e pomba-giras como masculinos no contexto Aluvaiá?

    A visão Umbandista me parece bem mais cromática.

    Discordo plenamente que um autêntico xamâ precise perder a consciência em seus transes e que somente assim as energias espirituais possam fluir.

    Responder
  17. Fahknei disse:
    7 de dezembro de 2010 às 15:55

    Excelente post, muito esclarecedor.
    Marcelo, você conhece a obra de Robson Pinheiro e Ramatis sobre a Umbanda?
    Abraços.

    Responder
  18. Gustavo Rocha Dias disse:
    7 de dezembro de 2010 às 16:55

    Agora ficou óbvio, o totem é outro, aproveitando o mesmo arquétipo.

    Responder
  19. Paulo Reis disse:
    7 de dezembro de 2010 às 17:25

    Marcelo,

    Só uma dúvida. Nos posts abaixo
    http://www.deldebbio.com.br/index.php/2010/05/17/belzebu-satanas-e-lucifer-parte-ii
    http://www.deldebbio.com.br/index.php/2010/06/02/pr-belzebu-satanas-e-lucifer

    Você respondeu ao Cleiton “Bombo-Gira é o termo correto. “Pomba-gira” é uma ridicularização do nome…”. O texto do Edmundo Pellizari teria colocado o termo erroneamento?

    @MDD – Nao… acho que ele colocou por ser o nome coloquial. Quase todo mundo usa o termo “pomba-gira”. São poucos, mesmo entre os pais de santo, que conhecem a grafia correta do nome.

    Responder
  20. G. Leão disse:
    12 de dezembro de 2010 às 12:50

    MDD, tenho um blog que fala sobre Xamanismo e nossas vivências dentro da Grande Roda. Estou colocando um link de seu post em meu blog. Caso não esteja de acordo com o link, eu o removo.
    Mais uma vez, muito obrigado por compartilhar suas vivências e aprendizados.

    @MDD – Pode colocar quantos artigos quiser, basta incluir o link pra cá.

    Responder
  21. Anderson disse:
    14 de dezembro de 2010 às 14:07

    Gostei do texto. Esclarecedor e rico em algun detalhes a qual eu nao conhecia. Sempre aprendendo.

    Responder
  22. Eduardo pereira disse:
    17 de junho de 2012 às 0:07

    Eu gostaria de saber se é verdade que a Kiumbanda se distingue das duas religiões citadas,se é um culto diferente ou não.

    @MDD – o pessoal faz uma mistureba de nomes, então precisa ver caso a caso.

    Responder
  23. uilian disse:
    31 de agosto de 2012 às 14:23

    É muito difícil alguém que trate a Umbanda, Kimbanda e Candomblé, com o mesmo respeito que o Edmundo Pelizari, que é Judeu. A maioria das pessoas, até dos pais de santo acredita que a parte africana da umbanda é atrasada, primitiva, inútil, maléfica, e por ai vai. Que só o Kardecismo europeu salvou os malvados negros das suas macumbas, que antes eram dirigidas somente para o mal, não existe caridade fora do Kardecismo e Cristianismo e tudo que veio antes do Zélio e foge da sua linha não merece ser chamado de Umbanda.

    Responder
  24. Rodrigo Merli disse:
    15 de fevereiro de 2013 às 14:30

    Olá. Como encontrei três gatinhos alguns dias atrás na rua estou pesquisando entre “ato de maldade” ou algum tipo de ritual. Achei um só caso na net de um garoto que arrancou com caneta os dois olhos de um gato no DF, mas nesse caso foram 3 gatos e somente o olho esquerdo de cada um arrancado. Isso pode ser atribuído a qual tipo (se é que pode) de ritual?

    @MDD – Algum doente mental querendo fazer os rituais que nao funcionam do São Cipriano.

    Responder

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