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Da Loucura à Normalidade

Igor Teo | 15 de junho de 2011

A loucura não foi sempre considerada doença mental. O filósofo, historiador e psicólogo Michel Foucault, no livro “A História da Loucura”, propõe que este conceito é antes uma construção social do que resultado de uma anomalia cerebral. Este pensamento é compreensível ao analisarmos as diferentes sociedade, as maneiras diversas como elas lidam com o ambiente e a forma de se portarem.
Um xamã de uma tribo indígena que conversa com espíritos ancestrais é aceito e também cultuado dentro de sua cultura. Quando deslocado para o ponto de vista da cultura ocidental contemporânea capitalista, este homem será julgado como alvo de surtos psicóticos.
Percebam que ele é o mesmo homem, mas suas atitudes serão interpretadas de maneiras totalmente diferentes de acordo com o meio em que ele está inserido.


Podemos inumerar diversos casos em que uma determinada ação é aceita dentro de um contexto, enquanto que em outro é totalmente repudiada. Comer com pauzinhos pode parecer loucura para um brasileiro quando se existem talheres. Assim como possuir uma festa com a duração de uma semana, com ocorrência de uma vez ao ano, em que todas as práticas sexuais e libidinosas são não somente aceitas, mas como também incentivadas pelos meios de comunicação, poderá parecer loucura para um protestante do norte da Europa.

A loucura é então determinada pelas condições históricas e locais. Trazendo um exemplo que muitos leitores possam conhecer é o fato de muitos médiuns sofrem com preconceito, recebendo diversas classificações patológicas como “esquizofrênicos” ou “histéricos”. Não digo que não exista uma disfunção cerebral que possa causar alucinações. Mas como podemos negar o fato que essas pessoas são felizes em seu meio e encontram uma utilidade para suas vidas? Será justo trancarmos em manicômios, ou criticar por suas condutas, todas as pessoas que se dizem possuidoras de contatos com entidades de outros planos, em nome da Ciência, para definharem infelizes como loucos e renegados da sociedade?
Ou será mais justo que demos a esse ser humano o direito de praticar suas crenças, desde que não invada o campo do outro ou atente contra os direitos humanos?

O conceito de loucura não irá somente variar em questão de espaço, como também dentro da mesma sociedade em diferentes tempos. Na Europa, durante o Renascimento, o louco tinha direito de viver solto nas cidades e era visto como detentor de um saber esotérico que guardava as verdades secretas do Universo. Exemplo desta tradição é o nosso conhecido Arcano 0 do Tarô, que representado pelo Louco, se refere à loucura como uma busca errante da verdade.
Com o advento do Iluminismo e a busca pela Verdade Última das Coisas, a loucura é vista como oposta à razão, ou seja, contra os conceitos de verdade ou moralidade. O próprio Descartes afirma que podemos encontrar a verdade até nos sonhos, mas jamais na loucura.
Na Época Clássica os loucos são expulsos da vida social, junto a demais proscritos, como sodomitas, prostitutas, feiticeiros e alquimistas.
A Psiquiatria surge algum tempo depois com a proposta de classificar, enquadrar e “curar” a loucura, considerando sintomas como sinais de um distúrbio orgânico.
Freud tem um papel importante nesta história ao discutir a questão da normalidade x patologia. Na Psicanálise, o que distingue o normal do anormal é uma questão de grau e não de natureza, isto é, nos indivíduos “normais” e nos “anormais” existem as mesmas estruturas de personalidades, apenas em intensidade diferentes.

Mas afinal, o que é normal?
A idéia de normalidade é muito mais uma questão de matemática estatística do que de saúde.
Viver a vida na busca doentia por dinheiro e status social é normal em nossa sociedade. Mas é extremamente patológico.

O atual paradigma da ciência impõe rótulos, e ao impormos uma classificação, nós restringimos o universo de alguém. Você pode chamar uma criança de hiperativa e enchê-la de remédios ou pode chamar uma criança de ativa e colocá-la para praticar esportes. Você pode dizer que um jovem tem deficiência de aprendizagem e enchê-lo de remédios ou pode descobrir a dificuldade dele e introduzir novos métodos de ensino mais adequados a sua situação especial.

Existe um padrão de comportamento exigido pela sociedade, e todos aqueles que fogem da média são considerados desviantes da normalidade.
O saber científico e suas técnicas surgem comprometidos com o interesse de alguns grupos em manter a ordem social. Anestesia-se ou retira-se a legitimidade do discurso do indivíduo que contesta esta ordem, transformando-o em louco.
Ocultistas? Loucos! Médiuns? Esquizofrênicos! Alquimistas? Se autoenganam em mentiras!

Que saibamos viver com as ambivalências dos significados, sem exigirmos a padronização das individualidades.

Artigo 19 é uma coluna de autoria de Igor Teo, estudante de Psicologia.
Leia também o último post: A Atitude Questionadora.
Vejam mais posts interessantes em meublog pessoal.

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Artigo 19
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Loucura, Psicologia
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19 Responses to “Da Loucura à Normalidade”

  1. Felipe disse:
    15 de junho de 2011 às 13:25

    Ótimo post! Essa história de “normalidade X anormalidade” sempre me chamou a atenção e é uma coisa que questiono desde os 13 anos. Já entrei um muitas discussões por conta disso, enfim…

    Responder
  2. RU disse:
    15 de junho de 2011 às 13:37

    Bom artigo!

    Responder
  3. Gustavo Costa disse:
    15 de junho de 2011 às 13:51

    Muito bom o texto Igor, parabens ! Curioso que cada vez mais se prega o combate a discriminação e preconceito parece que a intolerancia esta cada vez mais presente. Talvez seja por estarmos mais criticos a essa atitude rotuladora. Mas tambem como não rotular ? Me lembro do problema das batatas na qual duas tribos tinham um campo de batatas suficientes somente para uma delas, elas lutam para ver quem vai ficar cmo as batatas, rotular é como lutar pelo seu espaço, vc diminui o outro para defender o seu lugar – isto no meu entendimento – mas acredito que isto pode ser mudado quando começamos a ver o mundo como um lugar para contribuição e construção conjunta e não para dominio e controle.

    @Teo – Justamente. A psicologia, por exemplo, se desenvolveu muito devido a função de instrumento de controle. Tem coisa mais elitizada do que teste de QI ou mais eugenista do que teste vocacional?

    Responder
    • Rafael Arantes disse:
      15 de junho de 2011 às 15:41

      Gustavo, não vejo problema em rotular/discriminar, são etapas importantes para o conhecimento. Por exemplo qual o problema de chamar um gay de gay, um hétero de hétero, um negro de negro, um louco de louco, etc?
      O problema só passa a existir quando atribuímos características aos rótulos que não sejam intrínsecas ao seu significado original (preconceitos) e, quando achamos que todos devem ser iguais forçando os diferentes a se igualarem ou se esconderem.

      Igor, parabéns pelo post.

      Responder
  4. Estefferson Torres disse:
    15 de junho de 2011 às 14:58

    Ótimo texto Igor!

    Estou dando o maior valor às colunas do TdC, o que mostra que o Mayhem está em crescimento contínuo. Um projeto que reúne os mais diversos tipos de pensadores, mas com uma coisa em comum: são livres para pensar.

    Responder
  5. Giselle disse:
    15 de junho de 2011 às 15:18

    Excelente texto, muito bom MESMO!!

    Responder
  6. kk disse:
    15 de junho de 2011 às 15:28

    Um autor que eu recomendo sobre o assunto, é Thomas S. Szasz, mais especificamente os livros O Mito da Enfermidade Mental e a Fabricação da Loucura.

    Responder
  7. Moscavich disse:
    15 de junho de 2011 às 15:34

    “Viver a vida na busca doentia por dinheiro e status social é normal em nossa sociedade. Mas é extremamente patológico.”

    É a oração que farei hoje antes de dormir…

    Responder
  8. raph disse:
    15 de junho de 2011 às 15:36

    Então sou louco
    E quando vejo a vida passar
    Percebo que tudo que vejo
    É sagrado;
    E tudo que ainda não vejo
    Mas dia virá que verei
    É apenas a saudade que sinto
    De tudo de sagrado…
    Tudo isso que ainda não amei

    Então sou louco
    E quando vejo formigas a marchar
    Andorinhas a voar
    E homens ignorantes a se exterminar
    Percebo que tudo segue a lei;
    Nascer e morrer
    Renascer e, lentamente, compreender:
    A lei é a vontade
    O amor é a lei…
    E devemos tão somente amar-nos
    Na idade em que nos é dado escolher

    Então sou louco
    Se me lembro de quem fui
    Se percebo de relance
    Quem sou: mais uma partícula de poeira
    A girar no turbilhão universal;
    Então compreendo o longo caminho
    Que eu mesmo tracei para mim:
    Vejo mundos, vejo a força que os conduz
    Pelo Cosmos sem fim…

    Então sou louco
    E minha loucura é feita de luz

    “O louco” – raph’09

    Responder
  9. Dialuana Larissa disse:
    15 de junho de 2011 às 16:49

    Amei o texto! Parabéns!

    Responder
  10. Ana disse:
    15 de junho de 2011 às 19:11

    excelente.

    Responder
  11. refletindo... disse:
    15 de junho de 2011 às 19:52

    A ciência define direitinho a patologia da dita “loucura” e de outros distúrbios psiquiátricos: as alterações em níveis de serotonina, dopamina e afins em certas áreas cerebrais. O que me deixa inquieto é a precisão da “loucura” de alguns: já vi gente pressentir tsunamis e tornados ( claro que sem saber onde) e em poucos dias, o fato sair no noticiário. Já vi gente pressentir a morte de pessoas e acertar; já senti uma vontade grande de conversar com uma amiga praticante do candomblé e ao chegar em sua residência, onde também funciona um terreiro, ter uma “entidade” incorporada dizendo que tinha mandado me chamar e que estava me esperando para conversar, o que foi afirmado por todos os presentes, que ficaram tão boquiabertos como eu…
    Conheço bem as patologias psiquiátricas, mas esses fatos me deixam sem chão, até porque, se essas pessoas fossem doentes, como teriam uma vida totalmente normal? As alterações não são aleatórias com relação ao tempo e deveriam, dessa forma, afetar a vida do indivíduo como um todo, como se vê com a maioria dos doentes mentais? Não deveriam ter um surto no trabalho, por exemplo? Ou na rua? Por que esses “surtos” só ocorrem quando não interfere na vida do indivíduo?
    Se é doença ou não, não sei, mas alguns casos são muito, muito estranhos… “loucos” muito mais bem sucedidos que seus pares em suas profissões, na vida financeira, etc. A única diferença: essa crença no “sobrenatural” ou natural de mecanismos ainda desconhecidos…

    Responder
  12. Peterson disse:
    16 de junho de 2011 às 8:09

    O texto me lembro um parte da história de nascimento da Umbanda.

    Logo que os trabalhos do Caboclo 7 Encruzilhadas foram iniciados por Fernandino, e a primeira tenda de umbanda foi criada, conta-se que “os loucos saíram dos manicômios para trabalhar nesta tenda”.

    Ou seja, médiuns de incorporação, taxados pela sociedade, já em 1908, como esquizofrênicos.

    Todo o dia vemos esse tipo de pasteurização acontecer, em vários níveis e com várias consequências. Cabe a nós, livres pensadores, incentivar o contrário.

    Parabéns pelo texto!

    Responder
  13. Jonatas Carneiro de Arruda disse:
    16 de junho de 2011 às 15:21

    Nossa! Muito legal seu texto Igor, parebens.

    Toda teoria é tida como loucura, antes de se provar verdadeira.

    Responder
  14. Jonas disse:
    17 de junho de 2011 às 9:32

    Só pra provocar as mentes ociosas:

    sanidade é crer que o dinheiro, um pedaço de papel, tem valor, enquanto que ele é só um símbolo do que vale e o que vale não é o dinheiro em si, mas o que ele pode comprar, ou de forma mais clara, as experiências que as pessoas tem com o que o dinheiro pode comprar (a sensação de saciedade das necessidades físicas, a expectativa alegre de uma viagem, a alegria de novos conhecimentos obtidos na leitura de um novo livro, etc).
    OBS: essa foi para alguns céticos, adoradores de “Mamom”. Criaram um deus “dinheiro” e se escravizaram sem perceber. Não é isso loucura?
    @Teo – Os psicóticos são os mais sãos nesse sentido. Eles conseguem perceber que a realidade é uma loucura e vivem sua própria realidade. Nós normais que vivemos nessa ilusão sem questionar muito.

    sanidade é crer piamente que uma virgem deu a luz a um filho.
    OBS: nada contra quem acredita, dou todo o apoio, se é feliz assim, mas se vamos tachar de loucos quem crê em algo que a razão não explica, todos os cristãos estão inclusos.

    sanidade é crer que o acaso puro e simples origina coisas tão mais belas e perfeitas que nosso tão clamado raciocínio lógico. Ao invés de cérebro, poderíamos ter um conjunto de jogos de dados, para definir nossas ações. O acaso é tão mais inteligente, afinal…rs

    Abraços loucos a todos…

    Responder
  15. HiroNakamura disse:
    18 de junho de 2011 às 11:18

    Amo esse poema, quem sabe um dia eu chegue nesse nível de loucura:

    O Louco

    Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:
    Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”
    Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
    E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

    Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

    Assim me tornei louco.E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

    Khalil Gibran

    Responder
  16. Fr.Zandor disse:
    22 de junho de 2011 às 12:26

    Parabéns pelo texto!

    Responder
  17. Anarcoplayba disse:
    24 de junho de 2011 às 23:02

    A Loucura é uma Razão que não nos convém.

    Responder
  18. Jean Karax disse:
    3 de julho de 2011 às 1:15

    “O senhor é sempre assim tão branco?”
    “Depende de quem olha…”
    Citação de Sandman

    Responder

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