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Catolicismo à Brasileira

deldebbio | 22 de julho de 2011

“Tá pronto pra a missa?”

“Vou não, painho. Pode ir na paz”

“Oxente, e por que isso agora?”

“É que eu não sou católico”.

Naquele dia, a casa caiu. O adolescente resolveu peitar o coroa pela primeira vez na vida. Não que tivesse nada contra os apostólicos romanos. Somente começava a perceber que a turma da hóstia realmente não era mais a sua.

“Como não é católico, moleque!?”, o pai permanecia sem entender.

“Oxe, não sou católico, ora. Tou te dizendo que não sou” – irredutível, o menino.

Era agora ou nunca. Mas o velho não iria vender barata a derrota. E se a turma do Clube de Casais com Cristo desconfiasse? Teria ele um ateu em casa? Um satanista? Ou pior: estaria o garoto envolvido com macumbarias em geral?

“Eu não te batizei, porra?”

“Batizou.”

“Tu num fizesse primeira comunhão? Não te crismasse, caralho! Até um dia desse tu tocava violão na igreja, participava do grupo de jovens. Agora vem com essa conversa de que não é católico?”

“Sou não, meu pai. Vá por mim que eu não sou. Eu defendo o direito das mulheres ao aborto, acho que os homossexuais têm o direito de se casar. E que o divórcio é uma coisa muito natural hoje em dia. Também acho que o sexo tem que ser livre e sempre com camisinha pra não pegar doença nem fazer barriga na namorada. Tu tás vendo que isso não é coisa de gente católica?”

“E o que é que tem uma coisa com a outra?”,

“Ih, meu pai… Vai dizer que tu não tá ligado que a igreja é contra tudo isso?”

O mais-velho já estava impaciente. Colecionava dois abortos na juventude, não tinha nada contra a homossexualidade e divorciou-se da primeira esposa antes do primeiro ano de casamento. Camisinha nunca usou, mas não pode culpar o padre. Era do tempo que gonorreias eram medalhas de virilidade.

Terço na mão, andava de um lado para o outro, catando argumento. Mas nesse ringue quem estava quente era o garoto:

“E, na boa? Não sei como um cara inteligente como o senhor ainda dá dinheiro pra uma turma dessas. Tu sabia que a igreja católica é a maior proprietária de terra do mundo?”.

Foi só um jeb. O nocaute viria a seguir.

“E tem mais, papai. Eu tenho pra mim que o senhor também não é católico não, hein?”

“Como é que é, seu feladaputa? Agora você passou do limite…”

“Calma, meu pai, preste atenção…”

“Que atenção que nada, rapaz! E eu não vou pra a missa todo domingo? Não comungo? Não cumpro minhas obrigações?”

O menino respirou um pouco e foi soltando.

“Assim assim, né, papai? O que é que aquele aquário de sal grosso tá fazendo lá na sala? E aquela carranca na porta de entrada?”

“Você não sabe que é pra espantar energia ruim?”

“E você não diz que minha avó aparece no teu sonho? Anos depois de ter morrido?”

“Aparece. E não pode aparecer?”

“Sei… E aquela mesa branca que tu frequenta com tio Pacheco?”

“Ora, e o que é que tem os espíritos com essa conversa?

“Isso não é coisa de católico não, viu?”, o menino destilava ironia:

“Nem isso, nem esse medo todo que o senhor tem de despacho na encruzilhada. Tu num é cristão? Como pode achar que aquilo ali pode fazer bem ou mal a alguém?”

“Nadaver, nadaver, nadaver”, dizia o mais-velho, como num mantra.

Derrotado, baixou a cabeça, pegou o terço e foi à missa. Gostava daquele padre que comandava a das sete. A celebração era rápida, as músicas animadas. O da batina era um jovem de poucas palavras que sempre agilizava na hora da homilia. Assim dava pra pegar o começo do Fantástico.

Nunca mais falou de religião com o filho herege, que cresceu sem se interessar por nenhuma religião organizada. Até os dias de hoje, o jovem contestador voltou a pisar numa igreja católica apenas quatro vezes.

Quando casou com uma menina judia, no batizado dos dois filhos e na missa de sétimo dia que mandou rezar para o pai.

Ironia do destino. Pouco tempo antes de morrer, o velho convertera-se oficialmente ao espiritismo.

Fonte: http://www.porqueagenteeassim.com.br/2010/12/01/dialogos-do-catolicismo-a-brasileira/

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28 Responses to “Catolicismo à Brasileira”

  1. victor mantovani disse:
    22 de julho de 2011 às 10:55

    Gostei, gostei mais pura verdade da realidade do Brasil.

    Responder
  2. marina disse:
    22 de julho de 2011 às 11:36

    Muito bom!

    Responder
  3. Bruno Mais disse:
    22 de julho de 2011 às 11:57

    Uma gloriosa saga de um conspira!

    Responder
  4. Mevorach disse:
    22 de julho de 2011 às 12:40

    Gostei, é isso aí mesmo. Só acho que o garoto se enganou quanto ao pai não ser católico, era católico sim, mas como o título diz, era católico à brasileira.

    Responder
  5. Wallace disse:
    22 de julho de 2011 às 12:40

    Esse senhor da estória ao menos se deu o trabalho de argumentar. O gado que observo diz é “TÔ COM PREGUIÇA DE PENSAR”, como se fosse a coisa mais descolada do mundo. =)

    Responder
    • Raphael Rodrigues disse:
      26 de julho de 2011 às 9:47

      Gado?

      É simplesmente ofensivo usar um termo desses para alguém que teve sérias deficiências educacionais. O povo brasileiro, desde a colônia, não possui infra-estrutura necessária a criação do pensador, do argumentador, do filósofo. Entretanto, temos uma tradição popular rica e profunda, composta das mais diversas agremiações culturais.

      Chamá-lo de gado é elitismo. É achar que as pessoas são intrisecamente diferentes entre si. Como se nascessem pessoas piores e melhores. É dar margem e desculpas aos graves problemas sociais que geraram todo esse “gado”.

      Chamá-lo de gado é ofender toda a gama de conhecimentos que este homem coletou em sua vida, apesar da deficiência acâdemica pelo qual a maioria dos brasileiros passa. É subestimar o esforço de criar e manter uma familia em um país subdesenvolvido e desigual.

      Gado é quem, apesar das condições sociais privilegiadas, se agarra a um orgulho imbecil de ser um “tipo intelectual” e “naturalmente mais inteligente” . É quem ignora que tinha mais condições que o outro. É quem fecha os olhos para as injustiças gritantes e brada “Sou melhor por natureza, não sou gado”.

      @MDD – Ser gado não é privilegio de gente pobre; conheço muita gente com muito dinheiro que tem mentalidade muito mais de gado ou cardume do que pessoas que nao tiveram dinheiro.

      Responder
      • Paulo G. L disse:
        27 de julho de 2011 às 21:08

        Somente um pensamento firme construído sobre sólida base de uma igualmente sólida faixa teologal permite a alguém passar por essa vida de uma forma saudável e construtiva…Há que se levar em conta que o ‘hardware’ do ser humano(corpo físico) nunca se levará a bom termo sem o devido ‘software’ que permita ao ‘hardware’ executar o que está previamente proposto…A educação regulamentar(matemática, física, linguística…etc.) é importante? Sim; mas é igualmente ou tão mais importante a FAIXA TEÓRICA DE PENSAMENTO DOUTRINAL que é o que realmente impulsiona e DIRECIONA o comportamento e ações humanas. De fato, pq alguém iria devolver o troco dado a mais no supermercado se ninguém percebeu o erro na hora da
        compra? Se assim o fizesse, seria por uma questão de HONESTIDADE e não por uma questão de ter ou não uma educação regulamentar, de ser ou não analfabeto…De fato o que DIRECIONA o comportamento humano é a faixa doutrinária de pensamento e não o nível intelectual ou social ou de aprendizado social; Assim a honestidade assim como outras características transcedentais pessoais só podem ser adquiridas através da educação religiosa ou moral e NUNCA através do aprendizado social pura e simples…Como ter tão sublime influência de alguma instituição que não esteja solidamente estabelecida? Alguém aceitaria se enquadrar em alguma doutrina ou religião com menos de 100 anos de história?(Há quem se enquadre…) Há alguma outra instituição de doutrinamento que tenha passado incólume pela história humana que não a Igreja Católica Apostólica Romana? E subsiste por qual motivo? Será pelas qualidades retóricas do Papa ou dos seus padres? O doutrinamento que permite a alguém escolher um comportamento que lhe gere ‘prejuízos’ temporais imediatos podem ser adquiridos via aprenzidado formal nas escolas? Qual a importância de uma criança ter valores morais no mundo cibernético atual? Qual a importância da ideologia doutrinária na mente de um adolescente seja da idade média seja da atual? Deixaria alguém uma vida material confortável em casa de seus pais em prol de seus valores e crenças pessoais? O que forma os valores e crenças pessoais? Será esse comentário publicado? …Algumas dessas perguntas tem resposta…Uma delas não tem…(É esperar prá ver…)

        Responder
      • Fagner disse:
        28 de julho de 2011 às 14:08

        Sempre que alguém sai em defesa dos pobres o MDD se lança a frente com esse argumento de que burrice não é coisa só de pobre e que conhece gente rica e burra.
        A argmentação do Raphael Rodrigues é sobre pessoas que não tiveram estrutura acadêmica. Aqueles que tiveram oportunidade e não usufruiram é um caso a parte!

        @MDD – Ser gado também não é privilegio de gente sem estudo. Eu fiz POLI-USP e FAU-USP e convivi com as pessoas que tiveram as maiores notas na fuvest e mesmo assim tinha muita gente sem consciencia nenhuma por lá.

        Responder
  6. Ricardo disse:
    22 de julho de 2011 às 12:46

    Ahh, a rebeldia adolescente no seu melhor: contestação com inteligência. ;)

    Responder
  7. raph disse:
    22 de julho de 2011 às 13:14

    Esse negócio de “se converter a isso ou aquilo” é coisa de muitos séculos atrás, hoje isso na prática não existe, pelo menos para a grande maioria dos brasileiros, e também em boa parte do mundo, onde o sincretismo religioso e o ecumenismo é uma realidade bem mais tangível do que os eclesiásticos gostariam de admitir. Ainda bem.

    O batismo é até legal, uma cerimônia bonita de afirmação da própria fé… Mas batismo não é “conversão”, nem por ser batizado deveria-se entender que devemos “passar longe” de qualquer outra doutrina religiosa que não aquela em que nos batizamos…

    Responder
  8. sparta disse:
    22 de julho de 2011 às 13:25

    antes de morrer tem que ser espirita? e isso?

    Responder
  9. Vinícius Pedro disse:
    22 de julho de 2011 às 14:21

    já consegui convencer um amigo que ele também não era católico. não existe católico não praticante.

    Responder
  10. Herculano disse:
    22 de julho de 2011 às 14:45

    Me lembrou um pouco a minha história, sendo que mamãe é evangélica.

    Responder
  11. TiagoMazzon disse:
    22 de julho de 2011 às 15:48

    Esse post está calmo demais. Ah! É porque ele nao foi pro sedentário… senão estaria “em chamas” também…

    Anyway, faço desse comment o mesmo que fiz no post do dragão na garagem… ele está ótimo pra galerinha pseudo-cética vir, se identificar (ou não) com a história e se sentirem reconhecidos (ou ameaçados).

    Responder
    • Guilherme disse:
      27 de julho de 2011 às 13:50

      Ahh…. depois que o sedentário começou a cobrar conta no facebook e afins pra comentar, ninguem mais comenta nada.

      Responder
  12. Luis disse:
    22 de julho de 2011 às 16:15

    Pois eu vou contar que essa história aconteceu comigo quase totalmente igual. A única diferença é que meu pai não se converteu e nem morreu. E continua indo à missa que ele gosta, todo domingo às sete. =)

    Não acho que isso seja exclusivo do Brasil. Em outros países de maioria católica essa “desconexão” entre religião e comportamento também acontece muito.

    Me chama mais a atenção, inclusive, as pessoas ficarem reclamando que a Igreja Católica tem posições contrárias às suas ao invés de simplesmente largarem a religião, diminuindo sua importância. Li certa vez uma entrevista de um político gay reclamando cobrando mudanças, pois se sentia injustiçado pela discriminação da Igreja, já que ele era católico e frequentava a missa semanalmente. Vê se pode!

    Responder
  13. Aline H disse:
    22 de julho de 2011 às 16:16

    e assim “caminha” a humanidade…

    Responder
  14. Jonatas Carneiro de Arruda disse:
    22 de julho de 2011 às 16:38

    Bom texto, ainda vou ter essa coragem pra falar com meus pais, por enquanto levo do modo que consigo.

    Responder
  15. Willbn disse:
    22 de julho de 2011 às 17:16

    Muito bom o texto. Reflete a atual situação religiosa do nosso país!!!
    E ainda dizem ser um país Católico!!!!!!

    Responder
  16. Qualquer um disse:
    22 de julho de 2011 às 18:38

    Só uma coisa, todo católico é cristão, mas nem todo cristão é católico. Ortodóxicos, evangélicos, protestantes, praticantes de candomblé são vertentes do cristianismo. Claro, há muitas outras vertentes, como os cristãos da Igreja do Leste, e o próprio gnosticismo cristão.

    Responder
  17. Guilherme disse:
    22 de julho de 2011 às 18:58

    Pura verdade.

    Responder
  18. joão s. disse:
    22 de julho de 2011 às 20:19

    Senhor Marcelo,uma pergunta com relação a doação de mapa astral,eu posso usar o certificado de doação de outras pessoas que doaram sangue comigo junto com o meu?

    @MDD – Se for junto com voce no mesmo dia, sem problema. Não tenho como confirmar se a pessoa realmente convenceu outros a ir doar com ele ou se só recolheu certificados de gente que estava ali doando. A idéia de cestas básicas ou doação de sangue é o sacrifício em troca do conhecimento. Não valem, por exemplo, doações de roupas ou coisas que voce já iria doar de qualquer jeito. Tem de ter uma doação energética para o cósmico, seja no sacrifício monetário, de cestas ou de sangue.

    Responder
  19. Anarcoplayba disse:
    22 de julho de 2011 às 23:48

    O Brasileiro é tão genial, mas tão genial, que inventou o jeitinho brasileiro pra religião: sblurble NÃO PRATICANTE.

    Vale pra tudo. A pessoa se declara, mas não manifesta nada.

    A ironia, é que entre um católico não praticante e um evangélico, eu respeito mais o evangélico.

    Responder
  20. CG disse:
    23 de julho de 2011 às 7:26

    Retrato da realidade esse texto.

    Responder
  21. Rahi disse:
    23 de julho de 2011 às 8:37

    Hehehe, muito massa
    gostei mesmo
    paz proceis tudo

    Responder
  22. Roberto .'. disse:
    23 de julho de 2011 às 17:28

    IGUALZINHO AO MEU PAI!!!! hehehehehehehe

    Mas é a mais pura verdade. Eu mesmo posso me considerar agnóstico por que não sigo nenhuma religião oficialmente (apesar de acreditar tanto na doutrina espírita quanto na umbanda)… mesmo minha noiva (declaradamente kardecista) quer batizar os filhos na igreja e fez promessa caso conseguisse um emprego, ajudaria na construção da igreja de nossa senhora aparecida na cidadezinha natal dela…

    é o catolicismo tupiniquim mesmo… hehehehe

    Responder
  23. Rodrigo F. disse:
    24 de julho de 2011 às 0:26

    Resumindo bastante o que gostaria de dizer (por não ter como sintetizar tanto):
    - O texto é interessante, mostra bem a realidade de muitos que se dizem “católicos” aqui no Brasil (e creio que no mundo, apesar de não ter como afirmar). Apesar disso, considero um erro grave usar exemplos como esse (a atitude dessas pessoas) como definição da igreja inteira. É a mesmíssima falácia do espantalho que muita gente usa: pega-se uma imagem tosca, um exemplo infeliz ou um ponto de vista desfavorecedor e toma-se como o objeto de discussão em si. Assim a igreja é composta de padres pedófilos, reacionários em geral, ignorantes científicos e pessoas burras e acomodadas em geral, que nem sabem muito bem no que acreditam.
    - É claro que um católico pode discordar de alguma posição da igreja (não estou falando de crenças, estou falando de posições e determinações da instituição), e nem por isso deixa de ser católico. Não fosse assim, a igreja nunca teria mudado na história; nunca teria se adaptado, de maneira nenhuma, a sociedade de cada época. Isso não significa que a fé não é praticada, significa que o praticante em questão tem senso crítico, e isso não é “proibido pela igreja”, como alguns parecem achar.
    - Por fim, resta lembrar que é muito mais fácil criticar uma grande instituição (que por isso mesmo tem muitas pessoas envolvidas, muitos erros dessas pessoas “embutidos”, e consequentemente muitos “espantalhos” para serem criados) do que qualquer outra coisa que exerça a mesma influência, porém de maneira muito mais sutil. Estou cansado de ver pessoas aqui (e isso não tem nada a ver com o site, que gosto bastante) repetindo padrões de resposta, aceitando tudo o que está escrito, e muito raramente, questionando decentemente (sem cometer o mesmo erro que critica)… Posso dizer que sou um católico que não estou de acordo com essa imagem tosca que “vocês” (nem todos) fazem, acreditem ou não.
    No mais, o texto serve como reflexão também para os próprios católicos, achei bastante interessante e estou até recomendando aos outros participantes do meu grupo.
    É isso…

    Responder
  24. Bernardo disse:
    30 de julho de 2011 às 22:27

    e se eu falasse que quando eu contei pro meu pai e pra minha mãe que eu não queria ir à igreja, foi exatamente igual?
    Sério, e foi mais engraçado ainda quando minha mãe viu a página do Mayhem (que estava nos mais acessados do chrome, aí aparecia logo quando abria), que ela viu alguns nomes de deuses gregos, e alguma coisa de umbanda, e logo mandou pra mim, pálida: “Você não tá mechendo com macumba, né, filho?”. Acho que se eu dissesse que fiz um filho seria menos traumatizante pra ela…
    Mas, no fim ela me obrigou à ir em algumas missas a mais, e quer que eu faça um retiro de jovens, e eu sei que vou fazer só porque ela ficou muito triste comigo sendo um “ateu”.

    Responder

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