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Consciência Coletiva e o Choque de Egrégoras

Igor Teo | 5 de outubro de 2011

O conjunto de crenças e sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade forma um sistema que possui “vida própria”. A consciência coletiva independe das condições particulares de cada indivíduo, pois estes passam e ela permanece. Segundo Durkheim, ela forma o tipo psíquico de uma sociedade, suas condições de existência e seu modo de desenvolvimento.

Um crime, por exemplo, é uma ofensa à consciência coletiva. O direito penal protege a consciência comum de enfraquecimentos, exigindo de cada um de nós um mínimo de semelhanças, sem as quais seriamos ameaça a constância do todo. Surge a necessidade da imposição do respeito aos símbolos comuns.
O castigo recebido pelo criminoso é destinado a atuar não sobre ele, mas sobre as pessoas tidas como “honestas”, demonstrando a elas que aquele que difere do comportamento “comum” será punido, acalmando os corações que temem o caos.

Kurt Lewin é um clássico na Psicologia Social defendendo que uma pessoa não age apenas como indivíduo singular, mas como membro de um grupo social. E um grupo, não se mantém unido apenas pelas forças coesivas entre seus membros, mas também pela fronteira erguida por outros grupos.

Dentro dinâmicas de grupo, é de interesse do grupo majoritário manter um minoritário desprivilegiado, até para servir como bode expiatório. Assim foi com as bruxas na Idade Média, com os judeus no Nazismo e os comunistas na Ditadura, servindo de distração para as massas.

A pessoa e seu ambiente psicológico não podem ser tratados como entidades separadas, mas constituem um só campo. No entanto, também não se deve considerar grupos como espaços homogêneos. Não é a semelhança que marca um grupo, mas sim a interação social entre seus indivíduos.

A contemporaneidade nos traz reflexões interessantes quanto a essas questões, evidenciando alguns conflitos que seriam impensáveis em outras épocas.
A sociedade exige que façamos escolhas que, às vezes, nos são inconcebíveis. Exemplo: João gosta de rock. No entanto, ele não se sente um rockeiro. Ele também adora música clássica, e não enxerga nenhum conflito nisso. Mas seus amigos, que gostam de rock, não o compreendem.

Não possuímos uma única identidade, mas uma rede subjetiva de idéias que se configuram de forma muito particular em cada um. Somos formados por um complexo sistema de vontades, que muitas vezes parecem contraditórias entre si.
Quando perguntam a Maria a sua cor favorita, ela pode responder que é azul, mas também gosta de vermelho. Por que teria que se identificar com uma cor apenas? Tem dias que ela prefere azul, outros vermelho. Alguns dias ela gosta tanto de azul quanto de vermelho. Outros dias não gosta de nenhuma das duas.

São dois exemplos bobos, que não querem significar exatamente o que está escrito.

O indivíduo é um ser capaz de fazer suas próprias escolhas, das quais estas resultarão o sentido de sua existência. A classificação reduz um sujeito a posturas homogêneas e simplificadas. Exigimos muitas vezes uma identidade para termos uma opinião simples e generalizada: se gostamos ou odiamos, se queremos bem ou mal.

Um grupo não existe somente pela união dos que possuem características em comum, mas na segregação dos diferentes. Todos os grupos, das turminhas de adolescentes aos sábios esclarecidos, se mantém unidos através da exclusão dos demais, dos que estão fora do grupo, dos “que não são como a gente”.

É comum que os indivíduos sintam-se inseguros quanto a pertencerem a determinado grupo. Quando um indivíduo age sempre como membro do mesmo grupo específico, há que se notar certo desequilíbrio.

Mas é nesse conflito contemporâneo que muitos indivíduos constroem sua personalidade, no conflito da consciência coletiva/consciência individual, do comum ao grupo/do único dentro de um grupo, da moda/do estilo próprio.

Saber conciliar esses conflitos é ideal quando se procura trabalhar com diferentes egrégoras. Cada corpo teórico possui sua coerência interna, mas quando tentarmos unir duas concepção diferentes de mundo, muitos conceitos irão se opor.
Como resolver esses dilemas? Cada teoria corresponde a uma visão de mundo, que partindo de princípios diferentes resultarão em paradigmas diferentes. Cada paradigma tem seu ponto focal, aplicabilidade específica e implicações particulares.

Não podemos afirmar que uma é a “certa” e outra a “errada”. Cada uma tem objetivos diferentes, que para alcançar, irão percorrer caminhos diferentes. Cabe ao sábio escolher a melhor ferramenta para atingir seu objetivo específico.

Bibliografia:
Da divisão do trabalho social. Émile Durkheim
Problemas de Dinâmica de Grupos. Kurt Lewin
__________________________________________________________________

Igor Teo é escritor e estudante de psicologia.
Veja mais no blog Artigo 19

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Artigo 19, hermetismo
Tags
consciência, Consciência Coletiva, Egrégoras
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14 Responses to “Consciência Coletiva e o Choque de Egrégoras”

  1. Vinícius Pedro disse:
    5 de outubro de 2011 às 13:35

    sensacional! adorei o texto mesmo

    Responder
  2. Estefferson Torres disse:
    5 de outubro de 2011 às 14:49

    Me identifiquei bastante com o texto porque fala que não é necessário você ter uma só opinião ou gostar de uma coisa só. Porque você não pode ver vantagens tanto no capitalismo quanto na economia planificada? Porque não podemos reunir os dois? Porque devo escolher um ou outro?

    Não gosto de ser colocado contra a parede para escolher isto ou aquilo, dar minha opinião e ficar com ela, prefiro conciliar do que separar. Mas como o Igor escreveu, visões diferentes tem objetivos diferentes e não estão certas ou erradas. O objetivo de alguém pode ser separar, e isso será benéfico também.

    Vivo de acordo com a canção: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”

    Algumas pessoas me chamam de vira casaca, de sem opinião, mas é assim que eu penso. Digo que não tenho obrigação nenhuma de manter o que penso eternamente. Daqui a um minuto, minha opinião pode mudar e não vejo nada de mal nisso.

    Mas aí está, de novo, minha visão de mundo não está certa ou errada, ela está em equilíbrio ou desequilíbrio.

    Responder
  3. paulo disse:
    5 de outubro de 2011 às 16:50

    “Dentro dinâmicas de grupo, é de interesse do grupo majoritário manter um minoritário desprivilegiado, até para servir como bode expiatório. Assim foi com as bruxas na Idade Média, com os judeus no Nazismo e os comunistas na Ditadura, servindo de distração para as massas.”

    E hoje, qual é o grupo minoritário desprivilegiado? Cristãos?
    @Teo – Cristãos é um grupo muito longe de estar desprivilegiado em qualquer sentido no Ocidente.

    Responder
  4. gustavo disse:
    5 de outubro de 2011 às 17:03

    Marcelo, queria fazer uma pergunta que não tem nada a ver com esse post, mas eu não sabia onde perguntar, e achei melhor escrever por aqui.
    Aí vai: estava eu estudando pro vestibular que está próximo, lendo sobre Salvador Allende, golpes militares na América Latina e etc, quando leio que o Allende era maçom. Fiz umas pesquisas aqui na internet e descubro que o cara era mesmo! Não sabia que existia uma maçonaria socialista, pois sempre relacionei a maçonaria(meio que com um certo preconceito) com o iluminismo, governantes dos EUA, capitalismo e etc.
    Fico feliz em saber que estava enganado! Enfim, a pergunta é, se o Allende não tivesse sofrido o golpe (que por coincidência foi num 11 de Setembro), será que o Chile teria vivido uma experiência socialista mais “positiva” que a da URSS e derivados? Tem algo de Teoria da Conspiração nisso?
    Espero ter sido claro, sabe como é a cabeça de um adolescente às vésperas do vestibular, turbilhão de ideias e pensamentos…

    Responder
  5. raph disse:
    5 de outubro de 2011 às 19:41

    O que eu tento ser é um turista das egrégoras alheias, na medida do possível é claro… Abs–raph

    Responder
  6. Daniel disse:
    5 de outubro de 2011 às 20:24

    Acabei de terminar de ler um livro do Alan Watts, onde ele faz um estudo da farsa que é o nosso ego, que está cegamente submetido às regras do jogo do Preto-e-Branco imposto pela sociedade. Algo só pode ser rotulado, estudado, nomeado, quando posto em contraste com outras coisas. Nossos mais ferozes inimigos são, simultaneamente, nossos aliados, pois são eles que, no fim das contas, nos mostram ‘quem somos’. Sendo assim, dependemos dos nossos opostos para ‘existirmos’, nossos grupos rivais e suas próprias barreiras.

    Muito bom, o texto.

    Responder
  7. Flávio disse:
    5 de outubro de 2011 às 20:53

    Heya.
    Normalmente as coletividades ou egrégoras disputam como dois indivíduos podem também, mas percebemos, que há acima destas, outras, formadas por elas como elementos. “Um sonho dentro do sonho”. “Um deus dentro de outro”. “O Todo agindo ciclicamente sobre Ele mesmo”.

    Há no horizonte uma flecha, de luz e trevas ao mesmo tempo, que enxerga e pensa, mas não está viva, que observa o arco de onde veio porém aonde irá chegar, é que lhe dá um prazer antecipado. Não porque evoluiu, there is no such a thing, mas porque Ele não a faz sofrer, o que a faz sofre é o vento que atrita em suas penas.

    Responder
  8. Ana disse:
    6 de outubro de 2011 às 0:49

    bonito seu texto, parabéns novamente!

    Responder
  9. blue disse:
    6 de outubro de 2011 às 2:53

    Gostei do texto, mas me confundi com esse misto de psicologia social e hermetismo.

    Há algo realmente oculto por trás do que Sigele, Tarde, LeBon, Tchakhotine disseram?
    @Teo – Não. O que há em comum em todas as teorias é que elas buscam explicar os acontecimentos do mundo. Aproximações entre muitos conceitos são possíveis, outros impossíveis.

    Responder
  10. Tim.'. disse:
    6 de outubro de 2011 às 10:19

    93

    Vc é o autor desse texto?

    Joguei um trecho dele no google e apareceram muitos sites com essa reprodução…

    http://www.google.com/search?q=%22O+conjunto+de+cren%C3%A7as+e+sentimentos+comuns+%C3%A0+m%C3%A9dia+dos+membros+de+uma+mesma%22&ie=utf-8&oe=utf-8&aq=t&client=firefox-a&rlz=1R1GGLL_pt-BR

    93,93/93
    @Teo – O trecho que você pesquisou é a definição de Durkheim para consciência coletiva e, como está especificado no texto, é a definição que inicio para poder aprofundar no conceito.
    E infelizmente, o pessoal anda postando os textos daqui sem as devidas referências…

    Responder
  11. Leandro Severino disse:
    6 de outubro de 2011 às 10:43

    Igor,

    Eu ia escrever extamente o que Estefferson escreveu (Estefferson + 1) mas vou aproveitar para adicionar mais “uma conexão”.

    Imagino que estamos aqui neste plano para evoluir, para ter experiências que nos permitam evoluir. Em uma teoria conspiratória muito alucinante, imagino que cada experiência que temos forma um nova conexão neural em nosso cérebro. Esse conexão, de alguma forma vai ser repassada para o nosso espirito e no fundo ao desencarmos nossa bagagem espiritual será atualizada, por isso, acredito que pensar diferente, fora da caixa, refletir sobre a opinião alheia faz com que tenhamos essa nova experiência.

    “A compreensão sobre o alheio só ocorre quando nos permitimos experimentar a realidade do outro”
    Leandro Severino.

    Responder
  12. Carlos disse:
    6 de outubro de 2011 às 14:01

    afinal, nada é verdadeiro, tudo é permitido não é mesmo?

    Responder
  13. flasHQ disse:
    7 de outubro de 2011 às 14:19

    Na impossibilidade de conhecermos todos os pontos de vista devemos nos colocar no posicionamento de não julgar (afinal nos falta ferramentas suficientes para tal e invariavelmente teremos uma visão míope).

    Me chama atenção no texto o fato de que somos parte de um grupo não por escolher determinado grupo especifico, mas por sermos rejeitados ou rejeitar outros grupos conscientemente ou não. é uma abordagem óbvia mas que nunca tinha me dado conta!

    Acho que a lição que fica é, podemos nos estagnar em nosso suposto conforto e conformismo alienado ou nos lançar as experiencias diversas afim de entender um minimo do máximo de experiencias possíveis afim de termos um pouco mais ampla nossas visões especificas a cerca de povo, religiões, filosofias, etc…

    Responder
  14. José Gonçalo disse:
    21 de novembro de 2011 às 17:45

    Lendo isso eu me pergunto: no mundo de hoje a egrégora mais poderosa seria as egregóras cristãs por terem milhões de seguidores?

    Responder

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