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Ciência, Filosofia e Ocultismo

Igor Teo | 25 de novembro de 2011


Em minhas últimas postagens nesta coluna tive um posicionamento muito crítico em relação à Ciência. Entretanto, não faço isso para denegrir ou menosprezar a atividade científica, muito pelo contrário. “A Ciência é uma vela no escuro”, diria Carl Sagan, sendo esta vela a maneira mais segura que temos para conhecer o mundo, por menor que seja o seu brilho. A Ciência é uma vela no escuro, a Filosofia a mão que a segura.

Em primeiro lugar, Ciência é muito mais um modo sistemático de pensar do que um corpo fechado de conhecimento. Esse modo de pensar é uma criação humana que nos trouxe a possibilidade de conhecer e entender o mundo de forma cética e pragmática. O conhecimento científico é objetivo, busca medidas, padrões e critérios de comparação. Suas teorias são abertas a mudanças, pois os fatos não são dados empíricos espontâneos, mas construídos pela investigação.

O fato de estudarmos um assunto e opinar sobre ele não indica que o estamos atacando diretamente. Sabemos que a investigação através do método científico nos proporcionou a descoberta da cura para diversas doenças e desmistificou crenças absurdas, entre outras diversas maravilhas da Ciência. Mas os aliados mais poderosos da Ciência são na verdade aqueles que a criticam, pois apontam detalhes que necessitam ser corrigidos. Só se sentem ameaçados pela crítica epistemológica aqueles que vêem nela uma ameaça a sua própria necessidade de certeza, como se fossemos reduzir o grau de verdade de suas crenças.

Em nossa vida cotidiana ficamos enjaulados dentro de diversos filtros que minam nosso contato com a realidade. Tendências, teorias, culturas, tradições e pontos de vistas constituem uma vidraça opaca que interfere na forma que vemos o mundo. Toda a visão que possuímos de algum objeto, por mais neutra que se busque, está impregnada de nossos próprios valores, interferindo da forma que vemos o mundo.

Mas se não podemos nos distanciar da subjetividade, ter uma percepção real das coisas sem fugir do enfoque limitado da intencionalidade da percepção humana, de que adianta conhecer?

Buscar conhecer é algo indissociável do ser humano, pois desde o momento que adquirimos a consciência de nós mesmos começamos a teorizar sobre os elementos do mundo, conhecer seu funcionamento e até buscamos controlar-los. Nada há de errado nisso, muito pelo contrário. A filosofia, como o próprio nome indica, é um caminho para ser amigo do conhecimento, não seu adversário.

O filósofo e antropólogo Bruno Latour defende que devemos negar um mundo dado em si mesmo, independente da nossa subjetividade. Como poderíamos conceber uma existência isolada em si mesma, sem um contexto que gera diversas interpretações? Do mesmo modo que não há um mundo isolado em si mesmo, também não devemos entender que há uma mente interior, isolada do mundo, que perscruta a realidade em busca da verdade. Essa mente é, em verdade, parte do próprio mundo. Desaparece a dicotomia mente x mundo, pois ambos são condições da mesma realidade. Esse é o campo propício para entendermos o relativismo.

É bom sinalizar que relativizar não é o mesmo que anti-intelectualismo. Há saberes com seus níveis de complexidades construídos sobre paradigmas diferentes e, portanto, analisam uma situação de forma diferente, e há pseudoconhecimentos fundamentado apenas em preconceitos e crenças infundadas. Relativizar o saber é reconhecer a validez de outras formas de se conhecer o mundo, mas não necessariamente aceitar qualquer idéia se respaldando em “subjetividades”.

Quando procuramos entender o mundo particular dos indivíduos tendemos a subjetividade. Quando lidamos com valores relativos e atitudes humanas, por mais que se chegue a resultados aproximados, será imprevisível e incapaz de obter resultados controlados. Isso não implica dizer que seja um conhecimento de pura superstição ou senso comum, pois não se baseia em conhecimentos não verificados ou de suposições pessoais.

O Ocultismo tem sim um rigoroso método que busca a precisão na determinação de seus fenômenos. Apenas não se encaixa no paradigma das ciências naturais de previsão, controle e objetividade. Mas se fossemos realmente analisar esse paradigma, poderíamos questionar a própria objetividade da ciência e a interferência do pesquisador.

Assim como a Ciência é um modo de pensar que privilegia a Razão (Hod) como forma de se chegar ao conhecimento, acreditando que através da crítica racional chegamos a produção de verdade, podemos entender o Ocultismo como um modo de pensar que busca o conhecimento não apenas na Razão, mas também pelos sentidos (Netzach), tanto pelo materialismo (Malkuth) como pelo idealismo (Tiferet). Respeitamos outras formas de se buscar conhecimento, mas nós, particulamente, entendemos que a melhor forma de construir um saber é através do equilíbrio de diversos aspectos.

Bibiografia indicada:

A Esperança de Pandora. Bruno Latour
O Mundo Assombrado pelos Demônios. Carl Sagan
_________________________________________________________________

Igor Teo é universitário metido a filósofo.

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Artigo 19, Ciência, Filosofia
Tags
Ciência, conhecimento, Filosofia, Ocultismo, Relativismo
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7 Responses to “Ciência, Filosofia e Ocultismo”

  1. raph disse:
    25 de novembro de 2011 às 14:25

    Acho que um bom “primeiro passo” é compreender que a ciência não é em si nem materialista nem espiritualista, nem “-ismo” algum, nem ideologia – a ciência é tão somente o conhecimento de realidade detectável.

    Responder
  2. Fred disse:
    25 de novembro de 2011 às 15:11

    “A Ciência é uma vela no escuro, a Filosofia a mão que a segura”.

    Excelente. Frase lapidar. Aforismo digno de Nietzsche.

    Parabéns
    @Teo – Obrigado. Fico lisonjeado por ser comparado a tamanha personalidade.

    Responder
  3. Peter disse:
    25 de novembro de 2011 às 16:29

    Muito esclarecedor, como sempre!

    Responder
  4. Priscila G. disse:
    25 de novembro de 2011 às 17:28

    O estudo da Filosofia é realmente, na minha opinião, um campo minado. Você pode ter qualquer julgamento acerca de um ramo do conhecimento e tudo o que se pede é que suas justificativas sejam aceitas pela comunidade acadêmica. Mesmo que estejam, digamos ‘errada’. Sempre vai ter aquele conceito de que o ‘most’ do momento é a teoria daquele super renomado filósofo e que isso realmente é o que está certo. Einstein por exemplo, é visto como um ‘filósofo dentista’ mesmo que suas especulações filosóficas tenham sido em sua maior parte sobre as consequências de suas próprias teorias, só porque a formação dele era a de físico!
    Posso afirmar, acerca de minhas leituras, que a ciência é apenas um método, que pode realmente não conseguir abarcar todas as verdades naturais (lembro-me agora de Godel, um sistema consistente não pode provar sua completude e mais ainda, nem todas as verdades matemáticas válidas podem ser provadas, estou apenas fazendo uma extrapolação que acredito ser pertinente).
    Acerca da divergência de opiniões, acredito ser excelente. A partir de leituras, mesmo daqueles filósofos com visões na visão do leitor detentor de equívocos, podemos formular o nosso próprio sistema e aprimorar a nossa filosofia, que é afinal o suporte de todas as nossas realizações.
    @Teo – Sim, muito bem levantado.
    Achei interessante a citação do grande astrônomo Carl Sagan, muito usado como autoridade por ateístas pseudo-céticos por sinal.
    Mas ele mesmo cometeu alguns erros crassos. Em seu livro, “O mundo assombrado por demônios”, por exemplo, analisa a Astrologia apenas do ponto de vista dos horóscopos de jornal e aparentemente não tem a responsabilidade de analisar direito esse conhecimento milenar, que não se restringe ao que é publicado em jornais, mas sim ele deveria, no caso, fazer uma análise séria e pelo menos saber o que é realmente um horóscopo e um mapa astral.

    Responder
  5. Spritu disse:
    26 de novembro de 2011 às 3:52

    Fiquei curioso quanto o rigor metodológico do ocultismo. Haveria possibilidade do desenvolvimento de um post sobre? Minha curiosidade se baseia na compreensão dos modelos de ciência e seus rigores, como os modelos pragmáticos, funcional, fenomenológico, no qual cada um propõe um modo de ver e transformar o mundo. Sendo assim, também pergunto, como o ocultismo opera no mundo? [desculpe se minhas perguntas parecerem óbvias, mas sou um leigo no assunto]
    @Teo – Suas perguntas não são nada óbvias, muito pelo contrário.
    Partindo da definição de Magia por Alan Moore, “Magia é a arte manipular signos pra mudar a consciência das pessoas”, podemos entender que o Ocultismo será um estudo da consciência e de como ela se relaciona com a realidade. O problema de se trabalhar com consciência é que caímos no velho papo de subjetividade, o que dificulta a possibilidade de uma visão objetiva da situação (fundamento primordial dentro de uma Ciência Clássica).
    O rigor metodológico no Ocultismo, ao meu ver, é reconhecer a subjetividade e buscar através dela uma base segura na determinação dos fenômenos. Isso irá nos lembrar da fenomenologia de Hurssel.
    Edmund Husserl queria que a filosofia tivesse as bases de uma ciência rigorosa. Mas como dar rigor a um raciocínio se os objetos do mundo são sempre variáveis? O método científico resolve essa questão adotando uma “verdade provisória”, até que se prove outra realidade. Para que a verdade filosófica fosse também provisória deveríamos nos referir às coisas como aparecem para a consciência, despidas do empirismo do mundo real.
    Ou seja, é reconhecer que não é porque um caso não pode ser replicado incessantemente que ele deixa de ser verdadeiro. É reconhecer também as diferenças de cada caso. Seria ao meu ver, mais ou menos, descobrir a Verdade de cada sujeito e trabalhar em cima dela.
    E quanto a como o Ocultismo opera no mundo, está é uma pergunta que obterá muitas respostas diferentes, de acordo para quem você perguntar. O que é bom, porque parece que vai de acordo com o que eu expus acima. Se fugirmos da dicotomia mente x mundo, veremos que ambos são produtos da mesma realidade, então faz muito sentido entender que estes se afetam com muita facilidade. Não entenda isso como aquela velha história de que “se eu acreditar que posso voar, vou conseguir”, porque não é bem assim que as coisas funcionam. Parece existir uma série de leis naturais no Universo que não podemos controlar… pelo menos não no estágio de consciência que estamos nesse momento.

    Responder
    • Spritu disse:
      26 de novembro de 2011 às 18:23

      Me parece uma aproximação de Kant, quanto a juízo sintético e juízo analítico, se não me engano… Bem, estas questões epistemológicas muito me agradam!
      De todo modo, muito grato pela cordialidade ao responder.

      Responder
  6. Ana disse:
    26 de novembro de 2011 às 10:10

    “O que devemos refutar é esse conhecimento desumano, reducionista, frio, unânime e absoluto. Se existe algo inatingível é possibilidade de encarar a natureza como uma unidade homogênea, unificada em uma verdade absoluta que exclui toda oposição.”
    O pragmatismo da ciência vai contra isso, certo? Acho eu que o “senso comum” é que costuma atribuir esse valor de verdade “imutável” para o conhecimento científico, não a própria ciência.
    Continue com seus ótimos textos!
    @Teo – Obrigado :)

    Responder

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