Racionalidade Moderna na produção da Verdade
Igor Teo | 14 de dezembro de 2011
A modernidade é marcada pela massiva racionalização da relação do homem com a natureza que começou a se processar após a revolução científica do século XVI. O homem moderno se acredita capaz de subjugar, dominar, manipular, controlar a natureza e fazer com que esta obedeça a seus desígnios. Para isso, o homem calcula, mede, quantificada, experimenta e vai aos poucos desvendando tudo o que antes era mistério. Através de explicações detalhadas e intelectualizadas, removemos o mistério do mundo, pois aquilo que se desconhece tornar-se-á conhecido logo que a ciência e seus instrumentos o lancem sob a luz da investigação e do experimento, desvendando o que estava oculto ao primeiro olhar.
Este modelo de racionalidade moderno tem caráter totalitário, uma vez que não admite que outros modos de produção de conhecimento — não orientados pelos mesmos princípios epistemológicos e metodológicos — sejam considerados racionais. Assim, o modo de produção de conhecimento que marca a modernidade torna-se hegemônico. Este conhecimento é baseado na formulação de leis gerais que sejam aplicáveis em qualquer momento, seja do passado ou do futuro. Pressupõem, portanto, uma uniformidade e uma estabilidade entre o passado e o futuro que, por sua vez, decorre de uma visão mecânica do mundo.
O valor e a conseqüente validade da ciência moderna estão na possibilidade que ela oferece de manipulação, controle, e dominação da natureza através do conhecimento das leis que regem os fenômenos naturais. Para isto ela privilegia o como funciona das coisas em detrimento de qual o agente ou qual o fim das coisas.
As ciências cognitivas
A segunda metade do século XX foi marcada pelo desenvolvimento de novas e de antigas ciências, muitas das quais influenciaram a história da psicologia que desde seu principio estabelece articulações com a fisiologia, a filosofia, as ciências sociais e a teoria da evolução. Na década de 1950 surgem as ciências cognitivas que fazem com que a psicologia tenha que repensar e reinventar o conceito de cognição.
A invenção do computador, um dispositivo técnico capaz de memorizar, calcular, resolver problemas e dotado de linguagem traz a tona as antigas questões de conhecer e de quem pode conhecer e outra questão mais recente relativa à quão exclusiva é a inteligência, esta capacidade que sempre fez com que o homem se visse como muito diferente e único perante aos outros animais. De fato, faz com que o homem sequer se veja como um animal, pois apesar de sua biologia apontar nesta direção, a inteligência e a capacidade criativa juntamente com o conhecimento decorrentes da primeira conferem ao homem capacidades tais que fizeram com que este acreditasse por muito tempo estar num distinto e privilegiado nível de existência.
O computador é considerado um sistema equivalente à mente humana, pois pode desenvolver as mesmas operações e chegar aos mesmos resultados. O computador, no entanto, é uma mente sem reflexão. Ele processa informações, mas é incapaz de pensar sobre o que faz. O surgimento do computador e sua capacidade cognitiva sem reflexão é análoga ao funcionamento do homem moderno que vai utilizar esta máquina confirmando a epistemologia moderna na qual conhecer é calcular sem refletir, pois o que se valoriza é a capacidade pura e técnica de processar informações e resolver problemas, diversos ao mesmo tempo, sem nunca ter estimulada a capacidade de trazer à consciência as conseqüências de suas soluções.
A analogia entre o computador e a mente humana não é unanimidade no contexto das ciências cognitivas, que se caracteriza por uma pluralidade de abordagens que variam desde a completa adesão ao esquema computacional à total rejeição. Mas ainda assim, a analogia entre a mente humana e o computador se tornou suficientemente forte para ser transportada e utilizada no senso comum daquela porção da nossa sociedade com um acesso razoável à ciência.
Muitas vezes as considerações do campo científico são tomadas pelo senso comum como “verdades comprovadas” mesmo quando o debate científico é ainda inconclusivo e isto tem conseqüências sociais. Neste caso, a confirmação e o reforço da ideia do homem como “algo”, não como “alguém”, que pode ser usado como um instrumento por outros homens, assim como o computador.
Nossa capacidade irracional passa a se manifestar através da própria racionalidade, a partir do momento em que o homem usa sua mente como um computador, um mero processador de informações incapaz de pensar sobre si mesmo.
Conclusão
Não é nosso objetivo aqui questionar a capacidade intelectual do homem e o bom uso que ele pode dar a ela. A racionalidade é, sem dúvida, a grande capacidade humana que nos diferencia dos outros animais. Entretanto, devemos saber diferenciar entre a racionalidade reflexiva e a simples racionalidade técnico-instrumental. Enquanto a primeira é a capacidade do homem atuar de acordo com todas suas potencialidades, fazendo o uso da razão de forma elevada e centrada, a segunda se caracteriza como uma mera repetição de velhas concepções.
A racionalidade reflexiva é aquela que nos coloca em um perpétuo questionamento da verdade, sempre ponderando sobre nosso conhecimento. É a subjetividade humana na produção de conhecimento em oposição à frieza objetiva de falsas neutralidades. É o que diferencia o homem de máquinas. Os objetos sobre os quais versa estão em constante mutabilidade, por isso a razão reflexiva não pode enunciar verdades e deve procurar manter sempre o questionamento das suas próprias práticas.
A razão reflexiva precisa estar sobre constante questionamento, caso contrário, ela se torna tão falaciosa quanto uma crença qualquer. Muitos preconceitos costumam ser explicados de forma racional, e isso não faz que eles deixem de ser preconceitos. Quantas vezes nos deparamos com um homofóbicos, por exemplo, que possui toda uma explicação racional que procura justificar a sua crença discriminatória?
Devemos nos lembrar que durante muito tempo a superioridade de uma “raça” sobre outra foi cientificamente justificada. Não podemos dizer que eram argumentos irracionais, pois pelo contrário, havia um sentido que embora lógico, não corresponde à realidade. A lógica nos proporciona uma ilusão de que podemos conhecer a realidade, mas não é porque podemos provar algo dialeticamente que isso se tornará Verdade. Muitas vezes algo verdadeiro só está sendo mal explicado numa determinada lógica, enquanto um preconceito está construído sobre bases falaciosas que aparentam ser verdadeiros.
A razão não possui um fim libertário em si mesma. A razão pode estar a serviço da opressão, como aconteceu em regimes totalitários e nazistas, onde a razão instrumental atuava em busca do controle e o extermínio de seres humanos. Por isso que muitas doutrinas, como a própria Cabala Hermética, pregam pelo equilíbrio entre razão e sentimento, entre Hod e Netzach.
Texto escrito por Rodrigo Ferreira e Igor Teo.
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Rodrigo Ferreira é programador visual e estudante de psicologia.
Igor Teo é escritor e estudante de psicologia.
Blog: Artigo 19
Links relacionados
Adorno, Nazismo e a Arte
Foucault e a Disciplina




































O grande paradoxo da ciência moderna é ter reconhecido a existência da consciência, para então tentar reduzi-la a um mero tilintar algo aleatório de partículas dentro do cérebro. Claro que também somos máquinas, mas máquinas pilotadas por processos de consciência que vem se desenvolvendo desde as espécies ditas “irracionais”. Não existe máquina burra: existe programador burro. Nós não nos limtamos em apenas computar informações: nós interpretamos. E, as vezes, usamos também máquinas não cerebrais para auxiliar na computação.
Identificar processos de pensamento com medições da atividade elétrica neuronal é o mesmo que observar a eletricidade passar pelos fios nos postes de rua: da Usina do Pensamento, ninguém sabe ao certo onde fica, ou do que é formada. Pode ser que tudo seja explicado pelos 4% da matéria já detectada no universo, mas tudo indica que não: o Problema Difícil da Consciência, saber o que é exatamente a “vermelhidão” do vermelho, pode se delongar por ainda muito tempo…
A maioria dos filósofos da mente realmente considera que um dia uma máquina poderá realmente ter a mesma inteligência de seres humanos. Mas qual o problema? Se estiverem errados, suas tentativas reducionistas de explicar a consciência falharão e terão que procurar uma nova abordagem.
Pra quem se interessa, boas opções de pesquisa são “Shadows of the mind”, do físico Roger Penrose e “Consciousness Explained” do Dennett.
Interessante, esse é um ponto de vista que não tinha pensado ainda. Me fez refletir bastante…
Este post me faz lembrar da desilusão que foi quando descobri a dinâmica de pesquisa na faculdade. Apesar de ouvir nas aulas que o caráter nomotético não seria mais “correto” ou “melhor” que o idiográfico e vice versa, o que percebo é que o enfoque quantitativo, ou seja, que produz conhecimento generalizante, massificando a população em função da amostra, é sempre mais acolhido, mais “certo” ou confiável. Vejo produção de conhecimento sem sentido, análises superficiais e um monte de dados aleatórios. Justo em um curso de Psicologia…
@Teo – Sim, é muito real o que dizes, mas creio que ainda podemos ter uma certa esperança quanto as pesquisas da área. Há realmente uma grande onda mundial que acredita que abordagens quantitativas são realmente as melhores, apesar de toda sua artificialidade. Mas conheço muitos pesquisadores que fazem um trabalho muito preciso e minucioso, buscando não construir verdades generalizadas aleatórias, mas entender as particularidades de cada população através de um misto de análises quantitativas e qualitativas, buscando uma análise precisa e qualificada daquela situação específica.
Que bom saber disso, Teo! Não vou perder as esperanças!
E, se puder me indicar alguma leitura sobre pesquisa em Psicologia ou somente passar experiência, ficarei mais feliz ainda!!!
@Teo – Eu gosto bastante do livro “Projetos de Pesquisa: Elaboração, redação e apresentação”, de Maria Lucia Seidl de Moura (uma professora fantástica que tive a honra de conhecer) e Maria Cristina Ferreira.
Pode entrar em contato comigo pelo facebook doArtigo 19 ou pelo e-mail do blog artigo19sac@gmail.com
“Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; agora é preciso transformá-lo”.
A filosofia morreu com Marx, amigo, se informe. Tudo que há hoje são disjunções holográficas retransmitidas da câmara escura ideológica.
Querer unir filosofia e teologia seria trágico se não fosse cômico. Três urras ao velho Hegel.
É mesmo e o que você vai fazer para mudar o mundo? Ficar dizendo por aí que a filosofia morreu quando ela não morreu?
Texto interessante . É um dos poucos textos desse blog que não deslancham para o obscurantismo e que procuram fazer o leitor acreditar na existência do sobrenatural . Só uma duvida que vêm me pertubando há algum tempo: Porque vocês publicam textos sobre o estudo do sobrenatural,sendo que,desde a Teoria da Evolução que sabemos que o sobrenatural não precisa existir para que possamos existir? Antes de mais nada,digo que frequento esse blog porque gosto do seu parceiro “Textos para Reflexão”,sou um ateu que acredita que as respostas endereçadas à Religião são melhor respondidas pela Filosofia .
@MDD – só pessoas muito limitadas usam a palavra ” sobrenatural”. Para um hermetista, espiritualidade e reencarnacao sao fatos naturais cujos estudos estão cada vez mais avançados. Crença de que deuses sao literais apenas ateus e crentes a possuem.