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O Limite do Subjetivo

Rafael Arrais | 11 de abril de 2012

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» Parte 3 da série “Reflexões sobre o materialismo” ver parte 1 | ver parte 2

A subjetividade é o mundo interno de todo e qualquer ser humano. Este mundo interno é composto por emoções, sentimentos e pensamentos. Através da nossa subjetividade construímos um espaço relacional, ou seja, nos relacionamos com o "outro".

Há uma outra espécie de materialismo, definida por alguns como materialismo científico ou eliminativo, mas que eu opto por definir aqui como materialismo anti-subjetivo [1] – pois se trata de uma teoria que afirma que somente a matéria já conhecida explica o funcionamento da consciência humana. Trata-se de uma aposta e de um enorme paradoxo:

A aposta
Hoje se sabe que a consciência se parece mais com um processo que coordena decisões de acordo com o fluxo de informação sensorial recebido, ela é como o regente de uma “orquestra mental”. Porém, a análise qualitativa dos fenômenos conscientes complexos, como o amor e as decisões morais, ainda passam ao largo da explicação científica. Este é o famoso “problema difícil”: identificar o que exatamente interpreta informações e elabora respostas morais, em oposto a mera computação das informações.

Richard Feynman gostava de comparar a forma como os físicos modernos trabalham com a detecção das ondas de uma piscina: acaso não fosse possível ver quem mergulhou na piscina há pouco tempo, podemos ter uma boa noção de onde e quando ocorreu o mergulho, assim como o peso de quem mergulhou, apenas analisando a frequência e a amplitude das ondas na superfície da água. A ciência lida somente com o que pode detectar – se ela não detecta o amor ou a moral, ao menos pode detectar o efeito elétrico no cérebro que ocasiona as demonstrações de sentimentos complexos. O que a ciência não pode pretender, entretanto, é que tais sentimentos se resumam ao efeito, ignorando a causa… Ou postulando que a causa está além de nosso controle, que é fruto do mero agitar químico do cérebro, o que em todo caso é basicamente o mesmo que ignorar a causa.

Bahram Elahi, especialista em cirurgia e anatomia, dizia que embora a mente e o cérebro sejam separados, a mente (ou consciência) não é algo imaterial. Ao contrário, é composta de um tipo de matéria muito sutil que, embora ainda não-descoberta, é conceituamente semelhante às ondas eletromagnéticas, que são capazes de carregar sons e figuras (e mesmo videos – figuras em movimento), e são governadas por leis, axiomas e teoremas precisos. Ele teoriza que tudo relacionado a esta "entidade" deve ser considerado como uma disciplina científica não-descoberta, e estudada da mesma maneira objetiva que outras disciplinas (como química ou biologia, por exemplo). A consciência pode, portanto, ser formada por algum tipo de substância material sutil demais para ser medida ou detectada utilizando as ferramentas científicas disponíveis hoje.

Eis a aposta dos materialistas anti-subjetivos: a de que a consciência e seus fenômenos complexos, que exigem não apenas a computação de informações, mas, sobretudo, a interpretação das mesmas, pode ser compreendida apenas levando-se em consideração a matéria já detectada pela ciência.

O paradoxo
Primeiro a ciência moderna, através da neurologia, foi obrigada a aceitar o conceito e a existência da mente subjetiva, para só então tentar reduzi-la a atividades elétricas, efeitos bioquímicos, um mero agitar de partículas no cérebro… Em suma, tentar negar a existência dos qualia.

Qualia são tratados na Filosofia da Mente como sinônimos de subjetividade. Eles significam uma barreira intransponível entre objetivo e subjetivo, entre vivo e não vivo, entre humanos e máquinas. Não sabemos como o cérebro gera a subjetividade, nem se ela pode ser replicada artificialmente. Tentamos padronizar as sensações usando a linguagem, mas as características subjetivas, únicas, de cada sensação, parecem sempre escapar. Quando falamos de algo “amarelo”, por exemplo, não sabemos se essa cor é mais ou menos intensa para nós ou para o “outro”.

Essa inconveniência dos qualia levou filósofos como Daniel Dennet a tentarem negar sua importância ou até mesmo sua existência… Segundo Dennet, a subjetividade é uma ilusão persistente gerada por nosso cérebro, e não existem escolhas, nem morais nem imorais, apenas o resultado do fluxo de partículas no cérebro, de átomos dançando conforme alguma música aleatória definida por nosso meio-ambiente.

Eis o paradoxo: Dennet, ao contrário do que possam pensar, não é alguém que eu condene. De fato, ele é um dos poucos materialistas anti-subjetivos que realmente assumem sua posição enquanto materialistas – a grande maioria simplesmente ignora tal questão, e continuam a viver como se existisse a subjetividade, como se existissem escolhas, como se realmente fizesse algum sentido condenar criminosos ou condecorar heróis de guerra.

Até onde a luz pode chegar
Não há nada de errado com a ciência objetiva, o problema é quando cientistas creem que podem utilizar ciência para adentrar no campo da subjetividade… Da mesma forma que a psicologia não poderá provar que “esta pessoa está sentindo duas vezes mais dor do que aquela outra”, ou que “aquela pessoa ama aquela outra cinco vezes mais do que você ama seu cachorro”, dificilmente a ciência moderna terá sucesso nessa tentativa de equacionar a mente humana, e tratá-la como uma espécie de máquina que programou a si própria.

Já dissemos que toda a matéria é intangível, mas faltou dizer que ela é igualmente invisível em sua maior parte – pois tudo o que vemos com os olhos ou detectamos com instrumentos avançados são frequências de ondas eletromagnéticas, quantas de luz a refletir pelos átomos a dançar no vazio. Nós não vemos a lua, nem a árvore do outro lado da rua, nem mesmo nossas mãos ou as bactérias no microscópio, vemos apenas os quantas de luz, vindos da luz do Sol ou de alguma fonte de luz (tal qual lâmpadas ou vagalumes), a refletir os átomos que constituem as coisas vistas ou detectadas.

Mas mesmo esta matéria que reflete e interage com a luz é apenas uma ínfima minoria – cerca de 4% – de toda a matéria existente em nosso horizonte observável do Cosmos. Todo os resto – 96% – é composto por Matéria Escura e Energia Escura, e só pôde ser descoberto pelos cientistas através de seu efeito gravitacional no movimento das galáxias (assim como nas interações com a força eletrofraca, mas isso já daria outro artigo).

Aí está o limite do subjetivo, segundo os materialistas: 4% da matéria existente no pedaço do universo onde nossa observação alcança. É uma tremenda aposta esta que afirma que o problema difícil da consciência, que o próprio conceito de subjetividade, pode ser explicado e compreendido apenas com o tilintar dos átomos conhecidos. Para sermos materialistas anti-subjetivos, temos de ter muita fé no ínfimo que conseguimos desvelar objetivamente deste Cosmos infinito. Há que se reconhecer sua convicção.

» Em breve, o materialismo religioso e a espiritualidade materialista…

***

[1] Em filosofia da mente, o termo mais utilizado é “materialismo eliminativo”, mas eu optei por usar este outro termo neste artigo, para ficar mais simples entender o que eu quero dizer com ele.

Crédito da imagem: neurollero

 

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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6 Responses to “O Limite do Subjetivo”

  1. A Maçã Atômica | Teoria da Conspiração disse:
    11 de abril de 2012 às 11:56

    [...] Para responder essa pergunta, primeiro teremos de analisar a grande aposta do materialismo científi… [...]

    Responder
    • Denis disse:
      12 de abril de 2012 às 14:41

      Acho a postura do observador a mais honesta que um ser humano pode ter com ele mesmo. Ser livre, pra utilizar todos os conhecimentos como ferramentas, não como espadas e escudos. Atualmente estou impregnado com o materialismo eliminativo, mas não o uso como uma espada, ele é excelente para ampliar a compreensão por aspectos que eu não conhecia por ter crescido em uma familia espiritualista. Mas onde podemos ver com mais clareza se não no contraste? Eu acho que todo conhecimento deve ser superado e essa superação é uma viagem maravilhosa em direção a sabe-se lá o que…

      @raph – Exato. Como eu disse no artigo, apesar de crer numa corrente diametralmente oposta a sugerida pelo Daniel Dennet, eu o admiro exatamente por levar as “últimas consequências” a sua crença no materialismo. O Dennet, como filósofo da mente, é um “materialista profundo”, por assim dizer, enquanto a maioria é apenas superficial – e, assim o sendo, evitam ter de se digladiar com a preposição final do materialismo eliminativo, a de que não existe mente alguma. A “verdade”, no entanto, e como sempre, provavelmente está no meio do caminho entre o dualismo e o monismo, o espiritualismo e o materialismo, mas até mesmo por isso é bom que conheçamos os seus extremos opostos :)

      Responder
  2. Eduardo disse:
    11 de abril de 2012 às 15:57

    Esse tópico da consciência humana, tem sido para mim, nos últimos tempos, um ponto de extrema importância na formação da minha opinião sobre ” a verdade”.

    Aqui vai uma pergunta: Para você, um ateu tem que necessariamente ser materialista?

    @raph – Claro que não, e temos aqui mesmo entre os colunistas TdC um ateu que não somente é espiritualista (ou, no mínimo, contrário ao materialismo eliminativo que afirma que “mentes não existem”, visto que ele é psicólogo) como também ocultista :) Será que vocês sabem quem é?

    Responder
    • Eduardo disse:
      12 de abril de 2012 às 16:15

      Concordo.

      Mas se uma pessoa é atéia, por motivos de extremo ceticismo, por acreditar somente na matéria e nada mais que não pode ser provado por meios científicos, ele obrigatoriamente, ao meu ver, tem que ser materialista.

      Mas não é o que acontece. Como você mesmo disse: ” a grande maioria simplesmente ignora tal questão, e continuam a viver como se existisse a subjetividade, como se existissem escolhas, como se realmente fizesse algum sentido condenar criminosos ou condecorar heróis de guerra.”

      @raph – O que você trouxe aqui é importante por resumir muito do que pensamos a respeito desses assuntos. Mas, se me permite, precisarei te “corrigir” em alguns conceitos, no que tange a nomenclatura:

      1. Nem todo ateu não crê em Deus, alguns ateus são ateus simplesmente por “não crerem no Deus-Oficial” ou não seguirem os preceitos da “Igreja-Oficial” (*). Por isso tanto Sócrates quanto Jesus quanto Espinosa foram acusados de ateísmo, embora todos eles fossem extremamente crentes de um Deus (embora cada um o enxergasse a sua maneira). Embora existam ateus que não creem em Deus ou deuses, em deus algum, isso não necessariamente os obriga a desacreditar no espírito, ou seja, a serem materialistas eliminativdos ou monistas materialistas, e não dualistas ou espiritualistas.

      (*)Tudo bem essa parte é meio complexa, talvez seja melhor ler isso aqui: http://www.deldebbio.com.br/2012/01/11/teismos-e-ateismos/

      2. O cético extremo, ou de fato qualquer cético de verdade, não pode ser ateu, assim como não pode ser teísta. O que ele pode ser é agnóstico, ou seja, que tem a “ausência do conhecimento da existência ou inexistência de deus”. Por outro lado, ninguém é 100% cético e, esperamos, ninguém tampouco é 100% crente.

      3. Nem o materialismo (eliminativo ou não) nem o espiritualismo, nem o monismo nem o dualismo, são teorias “comprovadas”. Eles são somente teorias mesmo, e embora possamos facilmente verificar que boa parte dos cientistas da Academia tendam para o materialismo, isso nada têm a ver com a ciência em si: a ciência é o conhecimento de realidade detectável. A ciência não é ideologia, não é materialista nem espiritualista, não é monista nem dualista. Até mesmo por isso tivemos inúmeros exemplos de grandes cientistas que foram espiritualistas e religiosos, assim como temos também exemplos de grandes cientistas que foram materialistas e, alguns até, anti-religiosos. Mas, a história é prova: tivemos muitos mais do primeiro exemplo do que do segundo.

      Pra mim qualquer Ateu que o seja por extremo cetiscismo, racionalismo, vai ser materialista mesmo que não tenha notado isso, e por sua vez acredita que ele mesmo não “existe”! Hehehe… Eu acho curioso!

      @raph – Sobre crermos que “nós mesmos não existimos”, ou que “a mente e a subjetividade são uma ilusão cerebral”, acho que isso cai no que chamei de “singularidade filosófica”, que explico melhor aqui: http://textosparareflexao.blogspot.com/2012/01/singularidade-filosofica.html

      Abs!
      raph

      Responder
  3. David disse:
    11 de abril de 2012 às 20:09

    Me lembrou o conceito de “dust”, de Philip Pullman, em sua trilogia…

    @raph – Não por acaso, parece que o próprio Pullman se inspirou também na teoria da Matéria Escura: http://en.wikipedia.org/wiki/Dust_(His_Dark_Materials)

    Responder
  4. Diego disse:
    15 de abril de 2012 às 16:01

    Dizer que a mente e formada de alguma matéria sutil e indetectável não é tão materialista quando dizer que ela é feita de carbono e amoníaco? E se ela for como a informação que se manifesta através de um meio material mas que existe além dela?

    @raph – Exato, e como ficará mais claro na parte final, muitos espiritualistas são materialistas, apenas creem em “matéria fluida, ainda não detectada”, ou seja, não são materialistas eliminativos, apenas materialistas e dualistas (dualismo de propriedade, e não de substância). Mas, no fundo, tudo é informação: o movimento que dá forma a mente.

    Responder

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