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Indivíduo e Evolução

Igor Teo | 5 de junho de 2012


Benilton Bezerra Júnior. algumas décadas atrás defendeu sua tese de mestrado intitulada “A noção de indivíduo: um implícito pouco pensado”, e refletir nas ideias desta grande produção acadêmica brasileira é o que vamos fazer neste texto. É sabido como a noção de indivíduo permeia a prática de todo conhecimento que tenha como objeto o ser humano, seja de forma explícita ou implícita. Se a noção que temos de indivíduo é hoje algo que sabemos ser muito peculiar à nossa sociedade moderna, esta só passou a ser questionada a partir de estudos da antropologia que sempre nos apresentam possibilidades de existir diferentes.

Bezerra Jr. defende que a palavra indivíduo pode ter uma tríplice significação. A primeira seria de próprio corpo biológico. A segunda estaria relacionada com a ideologia típica das sociedades ocidentais modernas onde o indivíduo é visto como um ser dotado de características como autonomia e liberdade, além do mesmo ser visto como mais importante que a sociedade, de forma que esta deve existir para servir àquele. Na terceira formulação, comum às sociedades tradicionais, o ser humano é um integrante do todo social ao qual se subordina, e sua vida está imbricada profundamente na rede de relações interpessoais.

Em sociedades tradicionais sobrepõe-se a coletividade sobre o indivíduo, pois o indivíduo só é devidamente reconhecido como ser humano quando este integra um todo social. Ritos de passagem e iniciação são marcas de culturas tradicionais que representam simbolicamente este senso de pertencimento ao todo social. Na Idade Média e nas pequenas cidades da Antiguidade (e ainda hoje nas regiões mais pobres do mundo, ou mesmo em nossas favelas) as características político/econômico/sociais lembram diariamente aos homens da interdependência dos mesmos como algo necessário para a sobrevivência frente as adversidades.

Nas sociedades modernas, após divisão técnica e social do trabalho na Revolução Industrial, temos o início de um processo de individualização dos sujeitos de forma que  cada ser humano passa a ser encarado como unidade que existe por si mesma, autossuficiente, e a própria sociedade passa a ser vista como um simples ajuntamento dos mesmos. O indivíduo tende assim a uma interiorização e a uma vivência centralizada em si mesma, instalando-se uma oposição entre indivíduo e sociedade, sendo esta última percebida como um obstáculo para o exercício pleno do livre-arbítrio. Ignora-se assim o fato da sociedade ser mais do que a simples soma dos indivíduos, constituindo na verdade um todo, e que qualquer fenômeno que ocorra em uma das partes irá ter consequências em todo o conjunto. Este novo tipo psicológico das sociedades modernas está relacionado com a própria ascensão do poder da burguesia enquanto classe e do capitalismo como ideologia dominante.

Cabe aqui dizer que o fato de algo ser uma construção social de um determinado contexto socio-histórico não faz com que isto seja menos verdadeiro. Entretanto, é necessário ter em mente que isto vai fazer dela uma característica específica de uma determinada sociedade, não podendo ser tomada como verdade universal, evitando assim o pensamento de que tudo que difere do modelo ocidental possa ser visto como precário ou deficiente. Dessa forma, não cabe aqui dizer que uma sociedade é melhor que a outra, que evoluímos para algo ou mesmo regredimos. O antropólogo Claude Lévi-Strauss defendia que nada permite afirmar a superioridade ou inferioridade de um povo sobre o outro, mas todos os povos recentes humanos estão, a priori, nos mesmos graus evolutivos.

Uma tribo indígena não está atrasada em relação a um norte-americano moderno. A aparente diferença é que enquanto o primeiro estaria direcionado a uma vivência mais naturalista, o segundo estaria em uma forma mais tecnológica. O que aconteceu foi que essas diferentes civilizações trilharam por caminhos diferentes, e só quando alcançarmos um equilíbrio poderemos dizer que houve um avanço real em algum sentido. Podemos desse mesmo modo até dizer que o ser humano atual é mais evoluído que os antigos hominídeos, pois o grande intervalo de tempo entre um e outro e as diversas evidências corroboram com isso. Mas seria um erro, no entanto, dizermos que apenas mil anos são capazes de ocasionarem uma grande diferença em termos de filogênese. Nas palavras de Lévi-Strauss, o progresso “procede por saltos, ou, tal como diriam os biólogos, por mutações. Estes saltos não consistem em ir sempre mais longe na mesma direção; são acompanhados por mudanças de orientação, um pouco à maneira dos cavalos do xadrez que têm sempre à sua disposição várias progressões mas nunca no mesmo sentido. A humanidade em progresso nunca se assemelha a uma pessoa que sobe uma escada, acrescentando para cada um dos seus movimentos um novo degrau a todos aqueles já anteriormente conquistados, evoca antes o jogador cuja sorte é repartida por vários dados e que, de cada vez que os lança, os vê espalharem-se no tabuleiro, formando outras tantas somas diferentes. O que ganhamos num, arriscamo-nos a perdê-lo noutro e é só de tempos a tempos que a história é cumulativa, isto é, que as somas se adicionam para formar uma combinação favorável.” (Raça e História, pág. 9).

Cabe aqui, portanto, sinalizar que devemos olhar para as outras sociedades para aprendermos com ela, pois como fica evidente na visão antropológica de Lévi-Strauss, é somente quando culturas se encontram para somar (e não disputar qual é a melhor) que alcançamos um progresso real.

Se no tipo psicológico das sociedades tradicionais o todo social se sobrepõe ao indivíduo, nas sociedades modernas o indivíduo que se sobrepõe ao todo social. Resta-nos pensar numa saída em que envolve o indivíduo em conjunto com o todo social, como parte de um contexto maior, mas que também possui sua idiossincrasia. Um indivíduo no todo, e não um indivíduo do todo ou um indivíduo além do todo.
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Igor Teo é escritor e estudante de psicologia
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Antropologia, Evolução, Indivíduo, sociedade
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One Response to “Indivíduo e Evolução”

  1. Fernando Reis disse:
    12 de junho de 2012 às 15:58

    Igor, parabens cara! acabei de ler todos os seus textos aqui da coluna e gostei muito. Me surpreendi tambem porque acreditava nao gostar nem um pouco de psicologia, mas hoje vejo que me enganei.
    Quanto ao texto acredito que por mais que a sociedade moderna tenha seus padrões atuais de tecnologia e classificação da outra sociedade, e por mais que a consciencia coletiva da sociedade possa hoje estar mais interligada, isso não pode ser tratado como uma caracteristica discriminatoria que daria a vantagem ao homem de hoje em relação ao homem do século passado por exemplo. Acredito sim que essa é uma caracteristica que pouco revela sobre a evolução, pois nela não condiz a capacidade ou a eficiencia, ou qualquer diferença que essa consciencia coletiva possui em relação ao de antigamente.
    Novamente, parabens pelo texto, só tenho a agradecer pelo bom tempo de leitura realizado, e que continuarei acompanhando essa jornada.
    Abraços

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