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Memórias de um tempo por vir

Igor Teo | 15 de junho de 2012


Hoje eu resolvi fazer um post um pouco diferente, e talvez seja por um bom motivo: no último dia 09 a nossa coluna completou 1 ano de publicações aqui no Teoria da Conspiração. Ao todo, durante esta translação terrestre, foram 37 textos publicados, sendo 33 escritos por mim e 4 por eventuais colegas convidados. Acho que essas datas simbólicas são boas oportunidades para pararmos e refletirmos sobre o que se passou. Mesmo que você não acompanhe esta coluna assiduamente, tenho certeza que isso ainda pode te tocar de algum modo.

O mais curioso de tudo é que ao olhar para os primeiros textos, posso perceber que não os escreveria hoje em dia da mesma forma que escrevi naquela época. Com uma diferença de menos de um ano eu poderia tratar o mesmo assunto de modo diferente. Isso demonstra como a consciência é algo que só existe em relações, dentro de determinados contextos, evidenciando a fluidez da mesma. Dessa forma, não posso dizer jamais que os objetos do mundo ou a própria consciência são de uma determinada maneira, mas eles estão de determinada maneira. E na tarefa do autoconhecimento é algo que muitos já devem ter notado se tratar de um trabalho interminável, pois a medida que nos aproximamos da descoberta de nossa suposta verdade interior, a mesma se afasta de nós. É como um cachorro que corre em volta de si mesmo para alcançar o próprio rabo, mas nunca consegue obtê-lo, pois ele sempre se adianta um pouco mais.

É nessa incompletude, nesse sentimento de vazio que tentamos preencher com algo, que podemos encontrar a fonte de toda a grandiosidade humana e ao mesmo tempo o motivo de sua infelicidade. O sujeito está sempre incompleto, pois existe uma falta inscrita no psiquismo humano, e nesse furo da consciência as pessoas tentam tampar com um objeto: seja o amor que nutrem por outras pessoas, seja as próprias outras pessoas,seja uma família que se busca construir, seja uma religião que se acredita fervorosamente, seja o trabalho a que se dedica, bens materiais que se busca obter, drogas, desejo de transcendência espiritual, crenças mágicas, etc. Enfim, é um furo que lhe permite preencher com qualquer coisa, e as possibilidades de seleção de objeto para ocupar esse espaço são da ordem do infinito. De algum modo, algum objetivo é posto para dar sentido à existência, seja da ordem do físico ou do metafísico, do material ou do espiritual, do secular ou do religioso. No entanto, qualquer que seja o objeto que você possa vir a escolher de forma consciente ou inconsciente para preencher esse furo, jamais será um objeto definitivo, e por um simples motivo: ele não é um objeto natural. Existe uma perda ancestral em nossa consciência, que alguns pensadores gostam de relacionar com a própria filogênese e o degrau evolutivo separador dos demais mamíferos e seres humanos, que se marca em cada um de nós e se faz como um imperativo que exige uma resposta única para cada pessoa.

O fato deste objeto não ser definitivo é o ponto que vai fazer da existência humana algo como conhecemos: como nada é capaz de tampar esse furo definitivamente, o homem está sempre querendo mais. Por um lado, querer mais nos faz crescer, nos faz buscar sermos hoje sempre melhor do que fomos antes, seja desenvolvendo novas tecnologias, tentando solucionar os problemas do mundo ou mesmo até em manifestações negativas como vícios, como cigarro e álcool; por outro lado, estaremos sempre insatisfeitos, condenados a buscar um objeto que não existe. É a descoberta de que a fórmula da pedra filosofal não existe, porque a própria pedra não existe e tudo não passou de uma metáfora. Dito deste modo, há algo em todo desejo que está fadado a insatisfação, uma vez que a satisfação absoluta está sempre voltada ao regime do impossível, uma vez que o próprio objeto de desejo não existe. Não digo que não existe por não ter uma existência enquanto materialidade ou simbologia, pois de fato pode ter, mas que o mesmo não deixará jamais de se reescrever na consciência de forma reincidente devido a capacidade deste objeto tomar variadas formas.

Quantas vezes nos vemos desejando tanto uma coisa, e assim que a conseguimos, vê-se que isso não é o suficiente para nos satisfazer. Novamente retornamos a busca de um novo objeto para esse suprir o novo desejo. Não me venha dizer que isso é porque o “homem tem buscado apenas a materialidade, e que os valores espirituais podem nos trazer o sentimento de completude”. Estou há anos nesse caminho, e à medida que subo um novo degrau, outros novos aparecem. A sensação de completude é passageira, pois o imperativo de crescimento se faz presente. A ideia de Nirvana é muito atraente, mas o que garante que ao chegarmos ao ápice da evolução não haveria um novo ápice? Por que o caminho tem que ter um fim? Não seria o fim o próprio caminho?

Neste momento, não sei a que público você pertence quando digo isto: se tem me acompanhado desde o início; se me acompanhou durante um tempo, cansou e arrumou algo melhor para fazer; se conheceu a coluna mais tarde e começou a acompanhar; ou mesmo caiu aleatoriamente neste texto. Independente disso, o que talvez tenho buscado nos textos desta coluna foi romper com as soluções fáceis e absolutas. Porque elas nunca são realmente absolutas, embora fáceis. A facilidade dá uma falsa noção de segurança, mas quanto maior a confiança que se possui num sistema, pior é o trauma quando ele vem a ser destruído.  Como um amigo me disse esses dias: “o bom crente é aquele que quando o filho morre maldize a Deus”. Pois o tempo é fluido, é inexorável, é incontrolável. Lidamos com forças maiores que nós, e os destinos nem sempre residem apenas em nossas próprias mãos. Não que não exista a liberdade pessoal, ela existe, pois a forma como lidamos com isso é sempre nossa, ou como dizia Sartre: “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”.

É nesse esforço que me proponho num blog sobre esoterismo, magia e conhecimentos ocultos trazer algumas vezes conceitos de epistemologia, do que pode ser a verdade e como tentar lidar com ela, pois no final, é isso que realmente importa. A questão que deve ser entendida por qualquer um que queira fazer-se douto em sua área é que não importa se algo é de determinada maneira, mas entender o que lhe permite afirmar que algo é de determinada maneira. Entender as bases epistemológicas que sustentam o seu conhecimento é a diferença entre você realmente entendê-lo ou simplesmente estar repetindo porque gostou da ideia. Isso não está somente intimamente relacionado com assuntos esotéricos e magia (que hoje enfrentam o grande desafio de provar a sua validade num mundo cada vez mais tecnicista, desmistificado e racional) como em todos os demais assuntos que permeiam a sua vida. Das discussões sobre economia às de futebol. Se você ainda assim acha que isso não é “ocultismo”, e por isso não merece atenção, quem sabe um dia mude de ideia.

Por fim, gostaria de agradecer ao Marcelo Del Debbio pelo espaço, e parabenizá-lo pelo que ele tem construído. A todos aqueles que já leram pelo menos mais de uma linha do que já escrevi, também gostaria de agradecer. Sem vocês, isso não teria um propósito. Mas, além disso, queria escutar (ler) vocês. Coloquem nos comentários suas opiniões, sugestões, vivências pessoais, ou qualquer outra coisa que queriam compartilhar.
Semana que vêm voltamos à nossa programação normal.

Ah! O título tem uma dupla significação, pois além do próprio texto, ele também se refere ao novo álbum do Blind Guardian, “Memories of a time to come”. UP TO THE BARDS!
___________________________________________________________________

Igor Teo é escritor e estudante de psicologia
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14 Responses to “Memórias de um tempo por vir”

  1. Lorena disse:
    15 de junho de 2012 às 15:25

    Parbéns pela coluna, gosto muito dos seus textos. Me fazem refletir e me ajujdam na minha caminhada.
    Obrigada e seja feliz!
    @Teo – Eu que agradeço :)

    Responder
  2. Daniela disse:
    15 de junho de 2012 às 15:44

    Parabéns Igor, e muito obrigada por dividir seus pensamentos e experiências conosco. Como disse nossa amiga Lorena, me ajudaram também na minha caminhada. E que continue sempre assim… na espiral do conhecimento, onde um mesmo assunto depois de algum tempo não é visto da mesma maneira, eis nossa eterna lição! :)
    @Teo – Obrigado!

    Responder
  3. Dialuana disse:
    15 de junho de 2012 às 15:48

    Hum!!! Gostei muito do texto e me deixou reflexiva… Foi um texto que precisava ler no momento. Acompanho o TdC por volta de um ano e meio e também acompanhei algumas das suas postagens que me agradaram muito… O que posso te dizer é que estamos aí, né… Na busca, rs.. As”filosofias” nesse texto me fez pensar no equilíbrio… Como ter equilíbrio nos desejos, tendo em vista que naturalmente sempre queremos mais? Devemos estar sempre impulsionados por desafios? É algo que eu preciso refletir em saber até onde é coerente os passos da busca, do desafio e se ela vem da verdade interior… Dialuana
    @Teo – Pois é, algo que todos precisamos aprender a lidar.

    Responder
  4. Paula disse:
    15 de junho de 2012 às 16:49

    Parabéns pela coluna e pelos seus textos. São inspiradores, e muitos deles foram responsáveis por algumas reflexões que se trouxeram mudanças na minha forma de pensar e enxergar a vida. Acompanho há cerca de 8 meses, de maneira tímida, mas diante do ‘aniversario’ não poderia deixar de agradecer!
    @Teo – Que bom que eles tem feito alguma diferença, mesmo que pequena a primeira vista, na vida das pessoas. Obrigado!

    Responder
  5. yoe lenon disse:
    15 de junho de 2012 às 17:03

    É Igor seus textos quando não são esclarecedores, são enlouquecedores.Depende da postura de quem os lê.Aprendi muito com sua abordagem, ainda mais na questão de como construímos nossa realidade através de nossa linguagem, e de como não existe uma verdade pré-fabricada mais em um processo de contínua formação.

    Grato e muita Força pra todos nós que ainda estamos presos na caverna , mas que pelo menos sonhamos que exista um mundo luminoso “lá fora”( A verdade está lá fora—-Arquivo X).
    @Teo – rsrs É isso aí, valeu!

    Responder
  6. Vinícius Flávio disse:
    15 de junho de 2012 às 17:32

    Agradeço você por escrever esta coluna tão abrangente, acho muito legal ler textos sobre os assuntos dos quais você escreve com essa perspectiva de estudante de esoterismo. Quanto à música, é magnífica e encerrou com chave de ouro o post. UP THE BARDS!
    @Teo – Pois é, Blind Guardian é uma banda que faz alguns anos que tem me inspirado. Eu que agradeço :)

    Responder
  7. Alexp disse:
    15 de junho de 2012 às 18:08

    Igor, parabéns pela sua coluna e dedicação em disponibilizar seu tempo para transmitir conhecimentos e pontos de vista importantes à formação daqueles que estão na eterna busca pela verdade intangível!

    Gostaria apenas de deixar uma dica de leitura aos demais visitantes da coluna, dada a sincronicidade existente no seu texto com o tenho lido nessas últimas semanas. Aos que ainda estão iniciando em Filosofia, como eu, sugiro a leitura do livro Convite à Filosofia, de Marilena Chauí, renomada professora e filósofo brasileira.

    O fato interessante é que estou lendo ao mesmo tempo esse livro e o livro Ritual e Dogma da Alta Magia, de Eliphas Levi. A experiência dessas duas leituras simultâneas tem sido muito interessante e a complementariedade entre elas é cativante. Fica a dica para quem quer mergulhar na magia entendendo também um pouco da evolução da “filosofia ortodoxa”.

    Grande abraço e continue firme nos seus objetivos e estudos!
    @Teo – O livro da Marilena Chauí é muito bom mesmo. Valeu!

    Responder
  8. Tollendal disse:
    15 de junho de 2012 às 22:22

    Por falar em Blind Guardian, têm eles alguma relação com o ocultismo?
    @Teo – Não que eu saiba. Mas que Hansi Kürsch é um leitor voraz e muito inteligente, com certeza. Eventualmente uma música pode até ter um tom mais místico e quase que iniciático, como “Sacred Worlds”. No entanto, acredito ser meramente artístico, o que não diminui nem um pouco a qualidade da obra.

    Responder
  9. Pseudo-Cético disse:
    16 de junho de 2012 às 14:31

    Particularmente acho seus textos e reflexões das mais interessantes do TdC. Você tem grande facilidade em transitar entre o mundo intelectual e racional ao místico e metafísico quando escreve, e isso é um dom admirável e de grande valor, tanto para você, quanto para quem lê seus textos.

    Parabéns e KEEP ON ROCKIN’!
    @Teo – Obrigado, meu camarada!

    Responder
  10. Rafael disse:
    16 de junho de 2012 às 17:03

    Parabéns Continue sempre adoramos seus textos e reflexoes !!
    @Teo – Obrigado.

    Responder
  11. Ramon disse:
    16 de junho de 2012 às 18:26

    Acho que todo mundo já desejou algo que quando conseguiu largou. Na minha opinião, a futilidade não está em largá-lo, mas em não dar a ele uma utilidade na sua vida. Você dedicou tempo, esforço, vontade e quando conseguiu não pegou nada em troca.
    Sem dúvida é necessário continuar caminhando, porque parar definitivamente é a mesma coisa que morrer. E ninguém quer “morrer e ficar observando os outros vivendo”.
    Texto muito bom, nota dez. Me esqueci o nome do Filósofo que disse que a “verdade é histórica”. Nada é, tudo está.
    @Teo- Valeu!

    Responder
  12. Matheus Albanez disse:
    16 de junho de 2012 às 22:04

    Primeiro, parabéns ótimo trabalho… Eu queria dizer que eu estou muito surpreso pois eu estava precisando ler algo assim hoje, nossa que sorte que eu tenho de seu blog existir…OBRIGADO e seja muito feliz.
    Blind Guardian ótima banda :)
    @Teo – Obrigado!

    Responder
  13. Felipe Rodrigues disse:
    20 de junho de 2012 às 18:03

    Parabéns pelo seu trabalho!… Particularmente, eu devo te agradecer, pois me ajudou a esclarecer muitas dúvidas e iluminar meus pensamentos. Acredito não ser o único.

    Paz Profunda.
    @Teo – Obrigado pela consideração!

    Responder
  14. CarlosAlbertoVRR disse:
    20 de junho de 2012 às 23:34

    Parabéns pelos ótimos textos, continue com o excelente trabalho e que a inspiração nunca lhe falte. Um fraterno abraço!
    @Teo – Obrigado.

    Responder

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