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    Como perdoar um adultério

    Rafael Arrais | 31 de outubro de 2016

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    Há uma belíssima história do Novo Testamento que fala sobre a manhã em que Jesus foi apresentado a uma mulher que havia supostamente traído o seu marido. Quem a trouxe foram os judeus escribas e fariseus, isto é, que estudavam e aplicavam as leis da época. Segundo a legislação, ela deveria ser apedrejada até a morte.

    No entanto, o texto diz, em João 8:6, que os fariseus o tentavam a dar o seu próprio julgamento, a fim de que o pudessem acusar… Ora, se Jesus concordasse com as leis judaicas, estaria contrariando as leis romanas, que não consentiam com punição tão severa. Se, no entanto, defendesse uma punição mais branda, estaria contrariando, supostamente, as leis estabelecidas por Moisés.

    A reação do Rabi da Galileia foi, como sabemos, de uma sabedoria profunda. Após se inclinar sobre a terra e escrever algumas palavras com o dedo, sem dúvida deixando todos em sua volta confusos, mas também fazendo com que tivessem tempo de refletir, ele simplesmente respondeu:

    “Aquele entre vocês que esteja sem pecado, que atire a primeira pedra”.

    A análise literal deste trecho já é bela por si só, mas será possível alcançar uma compreensão mais profunda desta história?

    Surpreendentemente, eu fui encontrar esta interpretação aprofundada não no cristianismo, mas no sufismo, a vertente mística do Islã, e que considera Jesus um de seus profetas. Foi da boca de um mestre sufi que eu conheci esta história:

    Na doutrina sufi, há sete níveis de consciência, como que gradações que marcam o caminho da animalidade até a união mística com Deus. Quatro desses níveis são tão avançados que pertencem basicamente aqueles que já estão em seu caminho de iluminação espiritual. Os três demais, no entanto, são comuns no mundo todo, e são exatamente estes que são retratados na história de Jesus e da mulher adúltera.

    “Mas, espera aí, quer dizer que essa história é só uma metáfora, que nunca ocorreu de verdade?” – você pode perguntar, e a realidade é que, para muitos sufis, assim como para muitos místicos, não faz tanta diferença se a história “ocorreu de verdade”, há cerca de dois mil anos, exatamente como descrita nos textos sagrados; o que mais importa, no final das contas, é o que esta história, assim como tantas outras narrativas esotéricas, podem nos ensinar hoje, neste momento, nesta vida. Em outras palavras, os místicos não querem provar nada a ninguém, exceto a eles mesmos…

    Voltando a explicação sufi, os três níveis de consciência, ou três “eus”, que são retratados neste trecho de João são:

    Nafs ammara (o eu animal, ou que induz ao mal)
    Esta é a condição básica de todo ser humano ainda desconectado de sua própria essência e, dessa forma, da essência divina da própria realidade. Sem condições de controlar sua própria animalidade, é “arrastado” por ela para aqui e acolá, de modo que a satisfação dos desejos do ego se torna o principal objetivo da sua existência.

    Porém, como o ego jamais pode realmente ser satisfeito, neste nível de consciência os seres passam por grandes conflitos e angústias, e raramente conhecem reais momentos de paz.

    Na história bíblica, este “eu” é representado pela mulher adúltera, que “vive no pecado”. No entanto, como veremos em seguida, é exatamente este nosso aspecto mais obscuro o que tem o maior potencial de elevação, de reforma, de depuração, de melhora.

    Vale lembrar, é claro, que todos os personagens da história se referem a aspectos de nós mesmos, o que significa que nós somos ao mesmo tempo tanto a mulher adúltera quanto os demais “eus” presentes na narrativa.

    Nafs lawwama (o eu acusador)
    Neste nível, a consciência alcança um entendimento intuitivo profundo do que é “certo” e “errado”. Porém, é preciso destacar que esta noção vai além da mera legislação humana, e se encontra arraigada no próprio coração de cada ser.

    Há uma passagem belíssima da poesia de Jalal ud-Din Rumi, um grandioso poeta sufi, que diz assim:

    “Além das ideias de certo e errado existe um campo, eu lhe encontrarei lá”.

    Quem nos encontrará lá é o Amado, isto é, Deus, ou o alvo final de toda esta milenar caminhada espiritual. Não é da noite para o dia, obviamente, que conseguiremos nos elevar “além das ideias de certo e errado”, e viver no bem naturalmente, sem que precisemos de leis para nos colocar nos trilhos…

    Até lá, corremos o risco de nos tornarmos acusadores tenazes, a focar nosso julgamento inteiramente nos outros, e não em nós mesmos. É daí que nasce o fanatismo religioso, que absolutamente nada tem a ver com o misticismo ou com a verdadeira religião; enfim, que afasta, e jamais aproxima do Amado.

    Dito isso, é fácil identificar como os fariseus representam este estado de consciência. Estão inteiramente dentro da lei, é verdade, mas ainda não conseguirem ir além dela. Ainda não conseguiram chegar ao real conceito de perdão, e por isso acusam os demais, pois são incapazes de perdoar a si mesmos.

    Assim, todos nós que carregamos todas essas culpas nos sótãos da consciência somos também como os fariseus, incapazes de perdoar nossos pensamentos adúlteros.

    Nafs mulhima (o eu inspirado)
    Aqui a consciência finalmente abre sua janela para a luz eterna que banha a tudo o que há desde o início dos tempos. E, ainda que a fresta aberta ainda seja tão pequena, e ainda que os ventos volta e meia façam a janela voltar a se fechar, fato é que a visão de tal luz é inesquecível, e não há caminhante que não se lembre deste momento, para sempre.

    A resposta de Jesus, “atire a primeira pedra quem estiver sem pecado”, é ao mesmo tempo um exemplo da inspiração que chega de algum outro mundo, uma ideia genuinamente nova, e um testemunho de que o caminho de ascensão da consciência é árduo e muito, muito longo…

    Nós, que trafegamos ao mesmo tempo por esses três níveis de consciência, certamente temos de levar em consideração que por muito tempo ainda viveremos no pecado. Mas isso não deveria ser motivo para cairmos no pessimismo ou na falta de ânimo.

    Pois se foi o próprio Rabi quem disse que dia virá que faremos tudo o que ele mesmo fez, e ainda muito mais, isto significa que nós também poderemos um dia chegar aonde ele chegou, e assim, olhar para nossa pobre mulher adúltera e lhe dizer, conectados a luz que cintila em tudo que existe:

    “Ninguém lhe condenou, e eu também não lhe condeno. Vá, e não peques mais”.

    É assim que nos perdoamos, que domesticamos nossa animalidade, e que nos tornamos aptos a um dia, finalmente, encontrarmos aquele tal campo onde veremos o Amado, face a face.

    ***

    Crédito da imagem: Cena de A última tentação de Cristo

     

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    3 Responses to “Como perdoar um adultério”

    1. Mario disse:
      31 de outubro de 2016 às 21:03

      Obrigado pelo texto, Raphael. Seus textos sempre me inspiram. Abraço!

      @raph: Valeu Mario!

      Responder
    2. Carlos Roberto disse:
      1 de novembro de 2016 às 8:59

      o que é pecado? mesmo os fariseus eram bem melhores de que muitos brasileiros que abraçam a mentira como modo de vida e suas animalidades desenfreadas por ideologias das cavernas: se fossem os “esquerdas” brasileiros atirariam não a primeira mas muitas pedras apesar de estarem negros de pecados pois fazem da verdade algo irrelevante.
      No meio espiritualista ouvimos, de muitos, que o Brasil é o país do evangelho….? pura quimera.
      Aqui como no mundo, salvo exceções de alguns poucos países, vivemos, e o povo aplaude, a animalidade selvagem de muita violência. O Ocidente não tem histórico de educação mental e religiosidade profunda . Resta-nos cultivar o ensinamento do rabi da Galileia em nossas vidas e de outros seres iluminados para sairmos desse lodaçal que estamos vivendo: a própria Kali Yuga.

      Responder
    3. A. Freitas disse:
      28 de novembro de 2016 às 11:47

      Meus parabéns pelo belíssimo texto.
      O sufismo, como sempre, destrinchando com graciosidade ímpar os mistérios da vida.

      Responder

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