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    impertinências?

    Djaysel Pessôa | 20 de novembro de 2012

    “Eu não vejo necessidade disso!” Diz um senhor barbudo no meio do pátio. “Pra quê dia de consciência de alguém? Isso muda alguma coisa? As pessoas preconceituosas vão continuar sendo. Não há garantia pra ninguém de que isso realmente mude a posição de alguém.“

    O jovem ao lado, negro e cansado do papo, olha o senhor branco e velho e não responde. Sai dali pensativo, sem interesse em dialogar com mais ninguém. Seus antepassados não concordariam com aquilo, nunca! As lutas travadas já poderiam ter sido esquecidas e tudo ter voltado como antes se não fosse a manutenção destas datas simbólicas. Ele sabe disso, poderia até passar horas num discurso frenético com o senhor, mas de que adiantaria mesmo? Nesse ponto ele concorda. Preconceito algum muda por causa disso, mas ocorre algo que o senhor não parecia perceber. Ao determinar que tais datas tenham tanto valor e repercussão os homens tolos, estes cheios de preconceito ao que for, temerão represálias cada vez maiores. E já que eles não conseguem corrigir suas tolices sozinhos, com alguns poucos pensamentos acerca, a leia o oprimirá.

    Esse pensamento o deixou cabisbaixo. Nos últimos anos, diante da balburdia da homofobia, ao se deparar com o “dia do homem hétero” ele até sentiu a vontade de rir, mas teve uma impressão ruim. Viu que estes dotados de pouca capacidade ao se tornarem minoria poderiam explodir num frenesi louco para não perderem o “jeito”. Iriam gritar por liberdade de expressão, coisa que ele concorda plenamente, mas até que ponto agredir alguém é liberdade saudável?

    Continuou cabisbaixo. Foi andando e sentiu vontade de ir mais a fundo no pensamento. Lembrou-se dos seus estudos esotéricos que o levou ao ocultismo. Lembrou-se de tantos místicos de araque que ele conhecera cheios de rancor e preconceitos. Era muito curioso todo aquele papo de energia positiva e não perdiam a chance de alfinetar um cristão que fosse. Tudo muito contraditório. Quando por fim conheceu e estudou com afinco o ocultismo, sentindo que ali não mais se depararia com esse tipo de atitude viu que estava enganado. “O ser humano é preconceituoso por natureza!” Ele sentiu-se mal com tal afirmação. O que deveria dizer ao seu próprio eu? Tentou imaginar que esteve errado esse tempo ao pensar assim. “Os ocultistas são seres elevados!” E desta vez não segurou o riso. Continuou caminhando debaixo do sol. Assim pensou em tudo o que ele aprendeu nesse tempo todo. Sendo negro, interessado por magia e homossexual. Tudo o que sabia era que ele sentia-se mal todo santo dia. E não era por erro dele. Era uma culpa que não lhe pertencia. O ocultismo sanou parte disso, mas ao ver irmãos agirem de forma tão mesquinha e medíocre ele assustou-se.  Não há topo de pirâmide alguma. Estas já não são os moldes do etéreo. O mundo na verdade nunca foi feito sobre trilhos em linha reta. Por que haveria de haver um deus no trono?

    Esse pensamento fora mais devastador ainda. No entanto lembrou-se de um amigo, pelo qual tinha grande sentimento, sentimento este que ele teve que provar que não se referia ao seu lado homoafetivo, de modo algum, para não perder o amigo. Acabou rindo novamente. As pessoas são medrosas demais para se desfazerem de suas certezas. Acham que tudo está determinado, que seres humanos com pensamentos distintos são perigosos. Que o toque do olhar ou da mão vai fazer alguém tornar-se de sal ou de ouro. Essas imagens não são por mero acaso. Cada um dinamiza seu mundo de acordo com suas mais profundas aspirações. Se temem, irão ressecar diante do que estão para perder e endurecerão como estátuas. Se o valor é o mais importante, até o amor terá preço e código de barras numa prateleira qualquer.  Continuou até sua casa. Morava só e não chegou a fazer parte das cotas do governo, coisa que ele não sabia se era bom de fato, mas diante das evidências era necessário um empurrão. Ele lembra o quanto sofreu pra conseguir aprender o que não lhe ensinaram no colégio. Como a falta de acesso à internet o prejudicou por só ter livros velhos e rabiscados de algum estudante branco qualquer.  Como o transporte público era defasado, curioso como público não significa livre de taxas, no hospital eu não pago nada. Ele riu novamente.  Será?!

    “A vida está ressentida.” Ele pensa alto. “Ela está sem vigor para mudar.” São tantos termos e moldes para se enquadrar que não existe mais o ir e vir. Ele mesmo já declarou-se não homossexual, várias vezes. Acha o termo esdrúxulo demais. Na verdade ele já apaixonou-se por uma mulher e teve até um filho com ela. “Falta uma árvore e um livro!” pensa ele, mas rapidamente se retraiu no pensamento, sentindo a crítica literária em balbúrdia diante de uma citação tão impertinente. E rindo fechou a porta atrás de si, pensando nos paulos coelhos e nos zumbis dos palmares. Desta vez não fez nenhum banimento como de costume, sentia-se aliviado em ver que verdadeira vontade não tem bula.

     

    Djaysel Pessôa

    S.O.Q.C.

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    “O homem que é escravo de suas paixões ou dos preconceitos deste mundo não poderá ser um Iniciado; ele nunca se elevará enquanto não se reformar; não poderá, pois, ser um Adepto, por que a palavra ‘Adepto’ significa aquele que se elevou por sua vontade e por suas obras.”

    Eliphas Levi

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    « Diálogo Zen A Matriz Viva »

    One Response to “impertinências?”

    1. Elton Francisco disse:
      20 de novembro de 2012 às 15:29

      Achei o texto forte, mas com alguns pontos pessimistas. Gostei de várias frases de efeito e, principalmente, da maneira delicada com que descreve esse discurso interior.

      Achei-o bem escrito, direto e, de novo, forte.

      Parabéns pelo texto.

      Djpes: o pessimismo me vem as vezes como um marco para uma mudança posterior. Um estímulo sabe. Tenho em mente que nada é de fato como a expressão, daquilo ao que se diz. O mundo é muito maior e muitas vezes indecifrável. Esse pessimismo não é um fim, não está a frente do otimismo, andam juntos. Como o yin e o yang, são partes de um mesmo fator. Sinto que se mostrarmos a carne, a dor possa ser transmitida de um modo mais eficaz. No contexto deste texto, o personagem sofre algo, ao meu ver, que não se parece com a realidade, por não termos a capacidade, ou facilidade de compreender que tudo é muito mais complexo, sempre. O personagem ser negro, ocultista e homossexual ao meu ver não é a problemática (apesar de soar como se isso fosse o problema), mas sim ter de vestir tais roupas diante da sociedade. Assim sendo o problema não está de fato no personagem e sim na necessidade do mundo de enquadrar os modus operandis de cada um num contexto específico. Se implico que existe bom e ruim, isso se aplicará sempre? Não creio. Tento imaginar que na verdade não precisamos disso, isso fora criado para agrupar e facilitar o controle das massas, que acabaram se identificando de modo que a própria massa atua em prol do enquadramento. No texto tem uns pontos que acho relevante demais pra esse meu posicionamento, o primeiro: “As pessoas são medrosas demais para se desfazerem de suas certezas. Acham que tudo está determinado, que seres humanos com pensamentos distintos são perigosos. Que o toque do olhar ou da mão vai fazer alguém tornar-se de sal ou de ouro” e o segundo: “Ele mesmo já declarou-se não homossexual, várias vezes. Acha o termo esdrúxulo demais. Na verdade ele já apaixonou-se por uma mulher e teve até um filho com ela“.

      esse segundo trecho implica justamente nisso, nessa quizila em querer classificar os modos, os gostos, os sorrisos. Isso é até aplicável, mas nunca será real nem mesmo saudável. O ser humano ainda chegará num momento em que essas determinações não existirão (utopia?), onde os indivíduos não se basearão em padrões para seguir suas linhas retas. Os animais não sofrem disso. Tocam-se uns aos outros sem se perderem nesse ato, não deixam de ser o que são, mas não se importam em ser, pois de fato não se precisa implicar em ser aquilo que já se é… ai já estou entrando no texto anterior… rsrs Abraço!

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