Teoria da Conspiração

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    Qualquer coisa pode dar certo no amor

    Igor Teo | 24 de outubro de 2012

    “Acredita-se no mito de que o homem vence por si mesmo, mas não se entende que as oportunidades da maioria são determinadas por forças que nem eles podem ver.” Ernesto “Che” Guevara

    Sigmund Freud certa vez disse que houveram três feridas narcísicas na humanidade que tiveram como consequência uma mudança significativa na forma como o homem vê a si próprio. Os três pensadores responsáveis por elas foram Nicolau Copérnico, Charles Darwin e o próprio Freud. Primeiramente Copérnico no séc. XVI deslocou o homem da posição de habitante do centro do universo para habitante de um pequeno e inexpressivo planeta que gira em volta do grande astro Sol. Já não éramos mais o centro da Criação, mas apenas mais um mundo no meio de diversos outros. Em seguida veio Darwin para combater a arrogância do homem que pensava que por possuir a razão teria uma natureza muito distante daquela atribuída aos animais. Com a seleção natural percebemos que não somos mais a obra final da Criação, mas somos parte de um projeto inacabado. Por último, coube a Freud desferir o golpe final na ideia de autoimportância que o homem tinha de si próprio.

    Com Freud descobrimos que o homem não é senhor nem dentro de sua própria casa. Dentro de nossa mente há forças que são desconhecidas até por nós mesmos e que nos impelem a um padrão de comportamentos cristalizados e por vezes patológicos. A razão pura que Descartes sonhou é impossível, pois por mais racional que achamos que estamos sendo, sempre há alguma motivação inconsciente de fundo emocional em nosso comportamento.

    Não somos o centro do Universo, tampouco temos poder sobre os “destinos” que levam a nossa própria vida. Acima de nossas possibilidades existem forças desconhecidas que atuam a favor de nossa sorte ou azar, o que comumente chamamos de aleatoriedade. Mas cabe a nós também nos responsabilizarmos pela parcela de diferença que podemos fazer. Não falo de uma responsabilidade idealizada, irreal, que desconsidera totalmente o meio social que circunda um sujeito. Falo de uma responsabilidade contextualizada, inerente a nossas escolhas e o que elas refletem. Pois ainda que sejam escolhas inconscientes, as consequências irão recair na maior parte das vezes sobre nós mesmos.

    No filme “Whatever Works”, o cineasta Woody Allen brinca e nos faz refletir sobre essa nossa pequenez diante de um enorme Universo. A película conta a história de um velho professor de Mecânica Quântica, o único personagem da trama capaz de ver a vida em toda sua completude e que, justamente por este motivo, sofre de um niilismo mórbido. Boris Yelnikoff  conhece uma moça vinda do conservador sul dos Estados Unidos. A contraposição entre a extrema sagacidade do velho e a ingenuidade da jovem que largou os estudos, incentivada pela própria mãe, para ser campeã em diversos concursos de belezas de crianças nos mostra que o amor pode acontecer justamente nos casos mais improváveis.

    O velho misantropo era antes casado com uma decoradora de família rica, que em muito se assemelhava a ele em gostos pessoais e na própria inteligência. Mas Boris percebe que havia justamente se apaixonado pelos motivos errados, pois o amor não pode ser algo racional. Depois de uma tentativa frustrada de suicídio, que o deixa com uma perna manca, resolve abandonar seu casamento “perfeito demais”. Anos após o divorcio, surge então em sua vida a jovem Melody, uma  linda moça fugida da casa dos pais no Mississipi para viver em Nova York. Embora inicialmente relutante, ao fim o pessimista e hipocondríaco Boris aceita Melody, apaixonada pela pessoa que a acolheu, como sua esposa.

    Woody Allen nos mostra sua genialidade mais uma vez

    A vida de ambos segue bem, ela muito aprendendo sobre a vida com ele, e ele muito desfrutando do companheirismo de uma jovem extremamente bela, cheia de vida e que o suporta apesar de todas suas neuroses. As coisas tornam a mudar quando a mãe de Melody descobre o paradeiro de sua filha, que divorciada do seu marido, vai viver com o antipático genro. Inicialmente chocada com a situação da filha, a mãe de Melody, devido a uma série de circunstâncias desenvolvidas no filme, acaba se desfazendo de seus valores conservadores cristãos e se torna uma artista de sucesso, passando a viver com dois maridos, um filósofo e um crítico de arte.

    Quando o pai de Melody vai procurar por sua esposa e a descobre neste relacionamento alternativo, inicialmente se sente traído, embora ironicamente ele tenha sido o primeiro a trair a própria esposa com a melhor amiga dela. Frustrado, conhece um homem interessante no bar enquanto afogava suas mágoas e descobre que fora um homossexual reprimido durante toda sua vida. A mãe de Melody buscava satisfação sexual, algo que seu marido por ser homossexual (inconscientemente) nunca lhe conseguiu dar. Ele, por sua vez, nunca fora feliz de verdade, e somente vai conseguir isto na vida adulta, quando se livra de seus preconceitos conservadores e assume sua homossexualidade.

    Ao fim, Melody descobre que não amava tanto Boris. Troca-o por um homem mais jovem e bonito. Boris tenta se suicidar outra vez pulando da janela de sua casa, mas cai em cima de uma mulher que passeava com um cachorro. A mulher era uma vidente, totalmente oposta ao racional e rabugento professor de física. E assim Boris novamente confirma sua teoria: diante de uma infinidade de variáveis, numa conjugação de possibilidades impossíveis, devido a circunstâncias completamente absurdas e uma aleatoriedade incognoscível, ele acaba por cair em cima justamente daquela que será o seu novo amor.

    A vida é algo pequeno, inútil e sem sentido. Mas é algo tão extraordinariamente impossível que qualquer coisa que aconteça é tão milagroso quanto o próprio surgimento do Universo em si. Diante de um Universo extramente violento e completamente indiferente quanto a nossa existência, qualquer coisa que nos possa trazer um alívio ao sofrimento existencial, mesmo que uma ilusão de felicidade, é válido. Nisto reside o amor. Independente de como ele seja, de como ele se manifesta, de quanto tempo ele vai durar ou com qual pessoa acontece, whatever works.

    __________________________________________________________________

    Igor Teo talvez acredite que os poetas estejam certos, talvez seja o amor a única resposta.
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    12 Responses to “Qualquer coisa pode dar certo no amor”

    1. Rev.Breno disse:
      24 de outubro de 2012 às 14:21

      Esses três nocautes geram uma contrarreação interessante: Se não somos mais os filhos de Deus, no Firmamento e de Alma Perfeita, devemos ser, então, não parte da solução e sim parte do problema, e assim continuaríamos a ser signifante para o mundo. Em outras palavras se não temos mais argumentos pró, criamos argumentos contra, no melhor estilo “fale bem ou fale mal mas fale de mim”.

      Assim muitos adotam o Homem como o grande Mal do mundo, como o maior caudador dos males, sendo que a cruel realidade é que continuamos insignificantes…

      ________________________________________

      Falo também que estamos tomando o quarto nocaute, mas isso daria um texto próprio

      Responder
    2. chato de galochas disse:
      24 de outubro de 2012 às 14:51

      favor substituir ‘humanidade’ com ‘sociedade ociental descendente do pensamento judaico-cristão’. senão o texto estaria errado.
      @Teo – Concordo que quando Freud usou o termo “humanidade” na verdade estava falando de uma genealogia específica do pensamento humano, mas não acho que se deva alterar uma referência ao original por causa disso. Hoje sabemos o quanto o pensamento de sua época era bem eurocêntrico, mas entre mudar um termo que faz jus ao original e o texto todo “estar errado” há um salto muito grande…

      Responder
    3. Mateus Rizério disse:
      24 de outubro de 2012 às 14:54

      Na verdade, somos apenas parte de um software do megacomputador que é a Terra, destinados a servir como parte de busca pela questão fundamental.
      @Teo – O Guia do Mochileiro das Galáxias?

      Responder
      • Franco-Atirador disse:
        24 de outubro de 2012 às 15:58

        Falando no livro… O número 42 têm raízes na Kabbalah oO. Quando ví, fiquei de cara. Além de outras coisas que Douglas Adams colocava na trama, como por exemplo, palavras como fantasmas e a palavra criação, o que me fazem disconfiar se ele era um ateu materialista. Do fantasma vc pode até dizer que era zueira, mas da palavra criação, citada várias vezes, e ainda por cima o lance do 42 da Kaballah, fiquei meio desconfiado.

        Responder
    4. Daniela disse:
      24 de outubro de 2012 às 15:24

      Por mais complexos que possamos ser, acho que o amor é muito simples: apenas colocamos na cabeça as complicações para não vivermos ele. Às vezes me peguei nessa situação, e não aprendi a simplesmente amar.

      Responder
      • Mariana Cunha disse:
        24 de outubro de 2012 às 20:31

        É incrível né? A gente não consegue simplesmente amar. Concordo plenamente com você: o amor é simples … nós, seres humanos, é que o tornamos complicado.

        Responder
    5. TP disse:
      24 de outubro de 2012 às 21:43

      Não conheço o filme, mas o personagem (e o último § do texto) me fez lembrar vagamente do Dr. Manhattan; aquele das HQs.

      Responder
    6. raph disse:
      25 de outubro de 2012 às 10:25

      Engraçado mas eu vejo as 3 feridas exatamente como uma oportunidade (crise gera oportunidade) de elevação de nossa consciência. O Éden era um local no centro da Criação onde o homem e a mulher, ignorantes de quase tudo, viviam imortais, como os animais que, afinal, não tem consciência da própria mortalidade. Hoje sabemos que a Terra não é o centro, e que mesmo o Sol é mais um de bilhões de sóis a girar pelo turbilhão cósmico. Hoje sabemos que o homem não surgiu do nada, e está longe de ser perfeito, mas é um “vir a ser” em constante evolução na “guerra da fome e da morte”. Hoje sabemos também que mesmo em nossa própria casa, na mente, há muitas coisas que desconhecemos, que são varridas para o inconsciente, e que precisam ser revisitadas, para que venham a tona, ao palco da consciência.

      As 3 feridas nada mais são do que 3 grandes oportunidades de elevação da consciência, da vontade, do amor, enfim, do espírito.

      Responder
      • Hernandes Silva disse:
        25 de outubro de 2012 às 12:45

        Essa parte, “Hoje sabemos que o homem não surgiu do nada, e está longe de ser perfeito, mas é um “vir a ser” em constante evolução na “guerra da fome e da morte”. “, me fez lembrar desse texto que li hoje enquanto fazia o trajeto de casa para o trabalho: https://www.facebook.com/ghiraldelli/posts/386499018093563

        Responder
        • raph disse:
          25 de outubro de 2012 às 14:01

          Muito bom.

          Também falo sobre isso na minha coluna do TdC: http://www.deldebbio.com.br/2012/08/21/o-paradoxo-da-perfeicao/

          Abs
          raph

          Responder
    7. Pablo RQ Mortimer" disse:
      25 de outubro de 2012 às 16:25

      O filme é muito engraçado! xD

      Responder
    8. Desi disse:
      26 de outubro de 2012 às 1:15

      “Comentário bonito”. rs

      Brincadeiras à parte, isso aqui:
      https://fbcdn-sphotos-h-a.akamaihd.net/hphotos-ak-ash3/547595_374073529307357_632148868_n.jpg
      E essa velha conhecida:
      http://www.odiario.com/blogs/fernandarossi/files/2012/03/408003_186025424838787_100002939910235_322704_500325279_n-e1330991826494.jpg

      Mas não que seja uma procura que possa encher qualquer ‘vazio’. Nada encaixa lá dentro. Só que se for algo que te traga alguma felicidade, quem sabe talvez o assobio fique mais bonito. Melódico. E quem sabe a música te divirta um pouco.

      E não que seja preciso encaixar pessoas nesse vazio. Talvez reconhecer que a outra pessoa também tem um vazio como o seu. E quem sabe os dois assobios combinados acabem sendo uma música um pouco melhor. E também dá pra trocar de música. Procurando por outra ou não, que essas coisas acontecem.

      Mas lembrar de tudo isso sempre pra ter menos mimimis diante da vida, aí já é outra história… rs

      Responder

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