Tive uma decepção amorosa, daí encontrei a espiritualidade
Igor Teo | 25 de outubro de 2016Não foram poucas vezes que escutei pessoas afirmarem que chegaram na espiritualidade após o término de um relacionamento. Uma relação que chegou ao fim nem sempre motivada por questões como morte ou doença, mas que foi o simples término de um grande amor porque uma das partes já não estava mais interessada em manter aquele laço. As pessoas costumam relatar isso com certa vergonha, como se fosse uma razão baixa, menos legítima, o que não é justo. Não há vergonha nenhuma dizer que buscamos encontrar o amor na vida, e o amor sob a forma de um relacionamento amoroso. Aliás, é o que todos fazemos. E uma vez que passamos por uma grande crise relacionada a isso, tendemos a experimentar um grande colapso existencial. O conforto, por sua vez, podemos acabar encontrando em alguma forma de espiritualidade.

Isso revela a profunda ligação que há entre nossa personalidade, nossas aspirações espirituais e o amor. Não qualquer amor. É o amor de um outro, de um parceiro. A psicanálise nos ensina que nosso parceiro primordial é a mãe. É ela que nos acolhe no mundo, nos ama pela primeira vez. Espiritualmente, é reconhecidamente o amor mais sublime. Desde o senso comum que naturaliza o amor da mãe (o que nem sempre é verdade, pois nem todas as mães são naturalmente amorosas, e muitas pessoas insistem em não querer reconhecer isso), até o arquétipo da mãe-natureza, que abraça e acolhe todos os seres.
Se nosso primeiro amor é a mãe, também é a nossa primeira decepção amorosa. Se estivéssemos destinados apenas a este amor, estaríamos numa relação fusional-simbiótica com ela até hoje, e não mais largaríamos seu seio para conquistar algo do mundo. É preciso que haja o desmame, um corte nessa relação. Dizemos na psicanálise que quem opera este corte é o pai, mas não o pai real. O pai é uma função simbólica, que pode ser desempenhada pelo parceiro da mãe, ou mesmo um outro parente, a cultura, as aspirações sociais, ou até a própria mãe. O pai é a instância do mundo que retira a criança do confortável seio materno, lugar idealizado da segurança e da perfeição, para destiná-la a habitar o mundo e conquistar algo dele. É o verdadeiro mito do paraíso perdido.

O pai convoca a criança a sair desta fusão inicial, a habitar o mundo e a ser como ele. A mãe, seja por razões pessoais ou outras, não pode destinar a totalidade de seu tempo à criança. Ela tem outras coisas a fazer, seus próprios desejos. Na fantasia da criança, a mãe não pode ser dela porque surge o pai. E se na fantasia do bebê o que a mãe realmente deseja não é a criança e sim o pai, já que essa foi a razão do desmame, é preciso ser como o pai para conquistar a mãe novamente. Não a mãe real, esta reside para sempre perdida. Mas a marca da mãe que fica no inconsciente.
Pai e mãe aqui funcionam como funções simbólicas. Às vezes é um homem que faz função de mãe, ou uma mulher que pode fazer função de pai. É algo essencialmente fantasioso e metafórico, mas que é extremamente eficaz. Percebemos nas nossas fantasias inconscientes, aquelas mais íntimas e que não alcançamos sem uma profunda análise, que o filho ou a filha irá sempre buscar parceiros futuros que levem a marca de seus pais. Isto é, seja para desejar igual ou querer totalmente diferente, são nossos pais que nos ensinam a desejar. É a partir desta relação ancestral que tentamos ensaiar todas as demais.
Conquistar o amor do outro, mesmo na fase adulta, o amor do parceiro idealizado – aquele que nos atrai não só fisicamente, mas também emocionalmente e mentalmente – é reconquistar aquele amor perdido da infância. Que não é qualquer amor, é o amor que forneceu um dia a certeza da minha existência.
Pois a criança é um ser completamente desamparado. Se não é a mãe que a nutre, protege e lhe dá os devidos cuidados, provavelmente o bebê não sobreviverá. Paralelamente, numa situação de total desconhecimento do mundo e de si mesma, toda criança tem aquelas perguntas: Quem sou eu? Por que eu nasci? Para onde vou? O que devo fazer?

Os pais fornecem as respostas a essas perguntas de um modo inconsciente não apenas à criança, mas a eles próprios. Tudo se passa na fantasia subjetiva da criança, em que ela vê esse ser onipotente, responsável pelo seu destino, que deve lhe amar (já que a protege e cuida). Também é esse Outro primordial que lhe fornece a consistência do seu ser. Quem sou eu? Certamente filho de fulano com fulana, da classe social x, de determinada cor. Nasci porque meus pais me quiseram ou talvez por um acidente, de modo que fui na verdade indesejado. E mais importante do que sou, esse Outro também me diz como devo ser: a criança percebe aquilo que agrada aos pais, tentando satisfazer em seus comportamentos esse Outro como forma de garantir o amor dele para si, e consequentemente garantir sua sobrevivência.
A ideia de que há um Outro a ser satisfeito a partir da verdade do meu ser é inclusive uma das crenças inconscientes mais fundamentais, e que certamente carregamos ao longo da vida. Apenas com um longo trabalho de análise que conseguimos nos dar conta que já crescemos, não somos mais aquelas mesmas crianças, e, portanto, não devemos mais nada a ninguém. Não há nenhum Outro que precisa ser agradado, o que chamamos em psicanálise de ir para além do desamparo.
De qualquer modo, vemos como o amor é motor fundamental dessa dinâmica. Obter o amor do outro não é apenas função de uma construção social, de um apego, ou seja lá qual explicação que os livros de autoajuda estão dizendo atualmente. O amor do outro é o que fornece a consistência do meu ser, as coordenadas existenciais que me garantem como um sujeito real ou se existo apenas como simulacro num corpo de carne.
Após um término difícil, em que amamos muito a outra pessoa e depositamos grande parte de nossas aspirações pessoais sobre o outro, sentimos um verdadeiro vazio interior. É como se nossa existência tivesse ido embora de nós. E a verdade é que ela foi mesmo. Uma vez que situávamos nossa identidade a partir do outro, e esse outro não mais existe em nossas vidas, é como se nossa antiga identidade fosse destruída. Diante deste vazio existencial, cabe ao sujeito reinventar-se.
Neste sentido, muitas doutrinas espirituais fornecem valiosas contribuições. A meditação, por exemplo, nos traz a ideia de que completude existencial não depende de um outro, mas você já tem tudo dentro de você, basta despertar com sua respiração. Já os trabalhos sociais, os atos de caridade, nos desloca do lugar de “receber amor” para o de “dar amor”, de receber do outro para dar algo ao outro, de modo que nossa identidade amorosa é reestruturada sob outro ângulo. Enfim, apenas dois exemplos dentre diversas práticas possíveis e que podem ser analisadas individualmente.

Isso não quer dizer que pessoas espiritualizadas não dependam mais de relacionamentos amorosos. Mas a verdade é que elas passam a vivenciá-los de outro modo. Não mais tão apegadas aos fantasmas do seu passado, que martelam sobre suas cabeças exigindo modelos apaixonados. Mesmo formando um casal, passam a experimentar os relacionamentos de forma mais livre, compreensiva e plena.
Bem, uma ressalva: isto é um exercício. Às vezes os fantasmas inconscientes são mais profundos do que imaginamos. Por isso sempre recomendo: façamos mais análise.
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Igor Teo é psicólogo e psicanalista. Curta a sua página no facebook. Ou conheça seus contos no Medium.








































Gostei bastante!
vivi isso na pratica, ateh relatei num post da Wanju…mas em tudo se tira lições, o segredo pra não se abater com fim de relacionamentos eh ter amor próprio, e isso naum significa deixar de amar o outro, quem ama de verdade sabe q tudo é mutável e o apego eh algo danoso! li num txt do Marcelo…”quem se apaga perde!” pura verdade.
abs!