Você está pronto para ser livre?
Igor Teo | 9 de novembro de 2016Há uma velha piada da antiga República Democrática Alemã em que um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria. Sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha”.
O filósofo Slavoj Žižek não erra ao nos apontar que esta situação é a mesma em que vivemos hoje. Nossa sociedade contemporânea liberal, capitalista, consumista diz que temos toda a liberdade que desejamos – mas a única coisa que nos falta mesmo é a tinta vermelha. Nós nos sentimos livres apenas porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. Vamos tentar falar dela aqui então.
Em nossos mais usuais discursos, dizemos que almejamos a liberdade. Seja a liberdade política, a liberdade de expressão, a liberdade dos movimentos sociais. Seja a liberdade de estarmos fora da casa dos nossos pais, pois lá tínhamos que obedecer as regras familiares e não podíamos ser senhores do nosso tempo e vontades. Ou a liberdade de realizar nossos desejos mais profundos, relacionados ao trabalho, lazer, viagem, relacionamentos. Há ainda a liberdade espiritual, quando nós supostamente nos veríamos desligados das necessidades materiais e da carne, como vícios, comportamentos e os demais sofrimentos do mundo. Fica evidente que liberdade é uma palavra muito valorizada no nosso tempo, sobretudo por vivermos numa sociedade que se entende por liberal.

Entretanto, há certo engodo ao imaginarmos que liberdade seja um valor abstrato. Um bem em si mesmo, desapegado da realidade, como se toda liberdade fosse, em última análise, liberdade absoluta de realizarmos o que desejamos. Quando alguém deseja ser livre, há na verdade uma pergunta esquecida que deve ser reintroduzida neste mesmo momento: livre de quê?
Pois ser livre é sempre estar livre de alguma coisa. Só podemos nos sonhar livres no futuro na medida em que há algo no momento que cerceia nossa liberdade, tal qual uma interdição, uma proibição, uma impossibilidade. Uma barreira física ou mental. Não importa de que ordem seja este interdito: moral, político, religioso, um pai ou mãe opressor, um namorado ciumento, a falta de dinheiro para fazer as coisas que desejamos, ou até a impossibilidade pelas próprias condições de todas as vidas. A verdade é que todo desejo de liberdade aponta para a realidade de uma interdição (vista aqui ora como proibição, ora como impossibilidade).
É neste sentido que o filósofo Georges Bataille correlaciona todo desejo, todas nossas ansiedades de realização, como inerentemente uma transgressão. É porque nos vemos interditados em algo, que vemos a necessidade de superarmos esta barreira que se apresenta para nós. Uma vez superadas, acreditamos que estaremos livres e felizes.

Todos nós temos nossas próprias barreiras, nossas próprias limitações. O que parece uma interdição para uma pessoa, para outra pode ser algo simples, e vice-versa. Fica claro que quando falamos de interdição estamos nos referindo a algo inerentemente subjetivo, que responde à história pessoal de cada um. Por exemplo, alguém que nasce numa classe social desprivilegiada pode se ver desejando superar tal barreira e poder gozar de riquezas materiais. Nos filmes de Hollywood, os nerds geralmente se apaixonam pelas garotas bonitas e populares, aquelas que não querem ter nada com eles. Desejamos, em última análise, aquilo que nos parece impossível alcançar. Não é só saber que algo é proibido que ficamos mais interessados?
O prazer em realizarmos um desejo está intimamente relacionado com a fantasia de transgressão. É na medida em que nos vemos capazes de superar uma proibição ou impossibilidade, que o prazer emerge. Em outras palavras, prazer é a resposta fisiológica à satisfação da realização de uma fantasia transgressora. Por exemplo, possuir o amor de uma mulher ou um homem que acreditávamos impossíveis, fazer a viagem que sonhamos e trabalhamos muito para alcançá-la, passar naquele concurso super concorrido, realizar nossas perversões e fantasias sexuais mais íntimas, e por aí vai. É a própria interdição – a aparente impossibilidade ou proibição física, mental ou social daquilo se realizar – que funda o desejo como necessidade de transgredi-la.

É neste sentido que, se por um lado ansiamos por liberdade, por outro, a liberdade em si mesma não significa nada. São as limitações da vida que lhe fornecem sentido. O que faz do ser humano um ser inerentemente remetido ao impossível. E não apenas isto: nós insistimos no impossível! Em nossas expectativas de realização pessoal, sempre nos esbarramos com as proibições do Outro, com as impossibilidades da vida, com a aleatoriedade e o Absurdo dos Acontecimentos.
Estamos sempre reclamando das impossibilidades para a realização dos nossos maiores desejos. O que faz todo sentido, já que só é possível conceber a liberdade e a felicidade quando há uma transgressão a ser efetuada. Se desejar é sempre transgredir, só podemos ser desejantes quando há algo ou alguém que ainda nos proíbe ou impossibilita disto. No fundo, somos tão apaixonados pela liberdade quanto somos por nossas impossibilidades. Fazem um belo casal dialético que usamos para continuar vivendo.
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Igor Teo é psicólogo e psicanalista. Você pode me encontrar no Facebook ou no YouTube.








































A dualidade nossa de cada dia!
se a pessoa consegue dirigir e ter controle da sua própria mente…ele encontrou a liberdade, belo texto Igor! abs!
Legal. As imagens são de qual filme?
@Teo – Do segundo episódio da primeira temporada de Black Mirror. Recomendo a série.
Lembrei de algo que você comentou uma vez com relação aos neuróticos se não me engano, de que fogem da realização do seu desejo assim que se torna possível realiza-lo, para depois, voltarem a deseja-lo. Por que isso acontece?
@Teo – Porque há uma identificação entre desejar e viver. Só nos sentimos vivos enquanto desejantes. Realizar um desejo é consentir em morrer, nem que morrer uma parte de nós.
Obrigado.
Me lembrou dessa cena: https://www.youtube.com/watch?v=LqO6o9YeqAY
Parece bastante relacionada com o post e com sua resposta ao meu comentário. Teria algo a discorrer a respeito? Podemos igualar ou relacionar desejo à/e proposito?
@Teo – Penso que sim. O mito de Antígona é mais interessante que o de Édipo neste sentido. Ela tinha um desejo – um propósito – e se conduziu por ele até sua inevitável morte.