Você tem tempo para ler isso?
Igor Teo | 8 de outubro de 2012Na última sexta-feira (05/10/2012) estive no Simpósio Internacional Tempo e Subjetividades, ocorrido na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O evento reuniu estudiosos das mais diferentes áreas do conhecimento, da física à psicologia, além de outras subáreas das ciências humanas, unidos para discutir sobre o tema “Tempo”. Apesar de ter acontecido diversas mesas de discussões, a que mais me encantou foi a última, que reuniu o sociólogo alemão Hartmut Rosa da Universität Jena e o cosmólogo Luiz Alberto Resende de Oliveira, sob a coordenação do psicólogo social Jorge Coelho Soares. A exposição em particular de Hartmut Rosa me abriu uma perspectiva muito interessante e me fez refletir não só sobre a sociedade, mas também quanto à condição acadêmica de nosso país.
Mas se você não tem tempo para ler sobre isso, então eu acho que na verdade você precisa ler sobre isso.
Hartmut Rosa nos apresentou a ideia da aceleração do tempo, relacionando-a com a sensação de falta deste último que vivemos atualmente. Pois é muito curioso notarmos que alguns séculos atrás, em um tempo de uma hora poderíamos escrever com folga uma carta. Hoje, em menos de meia hora escrevemos mais de dez e-mails, se assim for necessário. E este aumento de produtividade não se reflete apenas na comunicação, pois também fazemos viagens cada vez mais ligeiras em aviões, temos pausas de almoços cada vez menores nos fast-foods (embora no Brasil acho que os restaurantes com este objetivo ainda não entenderam a ideia e nos fazem perder mais tempo na fila do caixa do que comendo), além de inúmero outras experiências cotidianas de nossa vida que ocorrem cada vez mais aceleradas. Enfim, se podemos fazer tudo mais rápido, era para que justamente nos sobrasse mais tempo livre. Entretanto, não é isso o que acontece, pois pelo contrário, sentimos que cada vez mais nos falta o tempo.
Falta tempo porque não escrevemos 10 e-mails em meia-hora. Escrevemos pelo menos 20, além de responder a inúmeros outros. O aumento da produtividade não significou uma redução da necessidade de produção, mas na ocorrência de necessidades de produções cada vez maiores. Produzimos cada vez mais bens e consumimos cada vez mais também. Há cada vez mais opções e possibilidades, embora a única coisa que não podemos aumentar é o próprio tempo. Assim o tempo que poderia ser vago é na verdade preenchido com mais tarefas, sobrecarregando o pouco que temos. Não à toa andamos apressados de um lado para o outro, sempre atrasados.
Isso reflete na maneira como vivemos a vida. Faz certo tempo que tenho pensado na ideia de que o homem não sabe conviver com a possibilidade de seu próprio fim, e por isso temos religiões, ciência e arte. O professor Rosa comentou algo justamente neste sentido, pois segundo o mesmo, a morte não nos assusta mais porque o homem acredita que descobriu o segredo da imortalidade, e este é viver o maior número de experiências possíveis antes de morrer. Ou seja, ao invés de nos tornarmos imortais não morrendo, achamos que nos tornamos imortais vivendo tudo que a vida pode oferecer antes de morrer, esgotando a possibilidade de experiências. Mas por sorte ou azar, isso é impossível.
Vivemos a pós-modernidade, um tempo onde a informação é metaforicamente gasosa, tudo muda muito rápido. No passado os velhos eram respeitados porque eles guardavam um entendimento sobre a vida. Uma senhora podia falar para seu neto como a sociedade funcionava. Algumas décadas atrás isto já não era mais possível, pois uma senhora poderia no máximo dizer que “na minha época era assim”. Hoje nem mais isso, o máximo que podemos dizer aos nossos filhos é “na minha época era diferente, hoje é assim, mas prepara-te porque logo tudo será distinto”.
Como ficam as pessoas num mundo tão contingente? Segundo Rosa, isso cria diferentes tipos de identidades. Primeiro temos os “surfistas”, pessoas que se adaptam muito bem a impermanência e sabem dela tirar proveito. O segundo grupo de identidades são aqueles que ficam “à deriva”, flutuando nas ondas, sendo levados pela correnteza dos acontecimentos. O terceiro grupo são os fundamentalistas: aqueles que não são mais desse tempo, mas ainda resistem. Eles não sabem lidar com a contingência, preferindo se agarrar a ideias com data de validade vencida do que aceitarem o “pode-ser-ou-não” da vida. No Brasil este grupo lembra-me muito a ultradireita com seu discurso conservador e totalmente delirante, além de anacrônico. Por último, temos os depressivos.
Hartmut Rosa nos falou muito mais de suas ideias durante a sua apresentação, constituindo algo maior do que eu aqui brevemente resumo a vocês. Por isso vale a pena conhecerem por si mesmos, embora acredito que pouca coisa já tenha sido traduzida ao português. Apesar de pouco conhecido no Brasil, uma breve pesquisada no Google nos permite notar que seu trabalho já tem sido reconhecido ao redor do mundo. Daqui a alguns anos, creio que Hartmut Rosa irá figurar ao lado de outros grandes sociólogos como Theodor Adorno, Jürgen Habermas e Zygmunt Bauman. Por minha vez, eu agradeço por ter tido o tempo para tê-lo conhecido antes disso.
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Igor Teo é enófilo por profissão, jovem cientista por paixão. Ou seria ao contrário?
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Olá Igor!
Vivemos em uma sociedade de “necessidades” onde precisamos ter e fazer cada vez mais coisas em um mesmo ou menor espaço de tempo, mas não é só isso, nós não sabemos mais “ter tempo”!
Essa sede inesgotável de experiências nos leva a querer preencher cada segundo com uma atividade, pois caso contrário estaremos sempre perdendo tempo com algo que hipoteticamente poderiamos fazer.
Não obstante temos dificuldade em filtrar a quantidade gigantesca de informações que nos bombardeiam a cada momento. Antigamente, nem tanto tempo atrás, caso fosse estudar sobre alguma coisa eu estudaria o livro X, hoje preciso estudar X, Y e Z além de verificar as demais fontes na internet, documetários, noticiários etc aumentando realmente esta sensação de “informação metaforicamente gasosa”.
um grande abraço!
@Teo – Sim, acredito que é neste sentido mesmo que você complementa. Abraço!
Pós modernidade é um conceito para lá de discutível.
“Vivemos a pós-modernidade, um tempo onde a informação é metaforicamente gasosa, tudo muda muito rápido”
Isso poderia ser aplicado à análise de quarquel época, desde a invenção de Guttemberg até as grandes navegações…
Todo caso, interessante reflexão.
@Teo – Sim, me ficou claro que ele está muito mais próximo da linha do Bauman do que do Anthony Giddens, por exemplo. Mas isso foi termo dele mesmo, e não meu.
Independente disso, o que parece é que esse processo teve sua gênese faz tempo, como você cita Guttemberg e as grandes navegações, e tem aumentado exponencialmente desde disso, chegando a níveis de crescimento que vemos hoje. Algo bem próximo de uma progressão geométrica.
Isto é, se quisermos mesmo falar em ponto de partida, já que também isso será questionável rs
Pergunta. A própria adaptação à vida sempre irá distorcer o tempo ?
Desses grupos citados pelo sociólogo acho que me encaixo nos dos depressivos. rs
@Teo – Não entendi sua pergunta. Poderia explicar um pouco mais? Abraço.
Arranjei tempo para ler…rs. Interessante a “coincidência”, pois no momento o bem que eu mais prezo é o tempo. E é o bem que mais me faz falta, pois a cada dia parece que ele passa cada vez mais rápido. Gostaria de ser como os “surfistas”, mas acho que estou mais para os “à deriva”. Lembro-me de ter lido há um tempo atrás que a percepção do tempo também muda à medida que envelhecemos. Ele parece passar mais rápido. Acho que é verdade. Quando era criança demorava uma eternidade entre um Natal e outro. Hoje eu me espanto de saber que o próximo Natal já será na semana que vem e eu ainda não esqueci o Natal da semana passada…rs
Seria legal ler mais a respeito desses tipos de personalidade propostos.
@Teo – Concordo. Quando fui escrever esse texto, eu percebi que o eu sou o primeiro do Brasil a falar dele no ambiente virtual! Isto é, pelo menos nas primeiras páginas do Google…
Em português só havia encontrado uma citação a um livro dele em um blog de Portugal… rs
Legal, mesmo!
Só não entendi “No Brasil este grupo lembra-me muito a ultradireita com seu discurso conservador e totalmente delirante, além de anacrônico”
No Brasil? Sério? Quem seria esse GRUPO?
Conheço o Bolsonaro, conheço algumas carolas, conheço certos “fiéis”, tínhamos o Integralismo há 60 anos, mas quem são “OS” representantes dessa ultradireita?
@Teo – Ainda tem muito deles por aí, principalmente aqueles que fazem vídeos no youtube diretamente de outro país para enviar ofensas pessoais a quem possa discordar ideologicamente deles.
Também não entendi esse papo de ultradireita.. para falar a verdade no Brasil temos so esquerda e no máximo um centro.. ninguem se auto intitula de direita o que, penso, é uma aberração politica.
@Teo – Antes tivéssemos esquerda neste país, e não um partido que está no poder se dizendo de esquerda, mas tendo ações mostrando justamente o contrário.
Que ninguém se chama de direita é porque isso passou a “pegar mal” depois da ditadura. Se chamam de “social democracia”, quando não de “democratas” ou “progressistas”, fingindo que flertam com ideias liberais. Mas o conservadorismo já está naturalizado no pensamento brasileiro.
Vou tentar ser o mais claro possível: vivemos em uma sociedade desigual, onde as estruturas dela produzem um enorme número de miseráveis e não dá as condições mínimas de sobrevivência e conforto a uma grande parte da população. Por outro lado, há grupos que se beneficiam disto, inclusive lucrando. Um partido conservador é aquele que tem atitudes que possam parecer até “populares”, como uma cesta básica aqui, ou uma bolsa-qualquer-coisa lá, mas não passam de estratégias para ganhar voto. Isto é ser conservador: não querer alterar as estruturas sociais.
Um partido que procura alterar essas estruturas que causam desigualdade, e não precisa nem ser necessariamente Marxista, é um partido de oposição, de esquerda. O problema é que poucos querem alterar as estruturas, só querem passar de “socialistas” e “democratas” para ganharem votos nas camadas mais baixas. Por isso há uma grande diferença entre o que cada um diz ser, e o que na verdade faz. Política, infelizmente, é feita por debaixo dos panos.
E por fim, ser de ultra-direita é “ser mais conservador que o conservador”, defendendo ideias fora de época, já superadas.
Olha, lí sua resposta e continuo achando que o termo poderia ter sido melhor escolhido.
Creio que a simples supressão do termo, restando “No Brasil este grupo lembra-me muito o conservadorismo, com discurso totalmente delirante, além de anacrônico.”
Simplesmente pelo fato de esse posicionamento remontar à representação política. Mas não estamos discurdando quanto ao conteúdo, não, ok? Só quanto a terminologia, mesmo.
Esse povo que faz ” vídeos no youtube diretamente de outro país para enviar ofensas pessoais a quem possa discordar ideologicamente deles” seria quem? O Edir?
Se sim, de fato, ele tem representação política ultraconservadora em diversos partidos. Tem até um Ministério nesse governo que se intitula “progressista”. Mas quais são as características do projeto POLÍTICO (e não “de poder”) desse grupo?
E o governo no PSB em PE? Alguém acredita que o Eduardo Campos é de esquerda?
Que o Haddad é de esquerda? E o Serra? Esquerda ou direita? E o Cabral?
Melhor NÃO USAR direita e esquerda.
@Teo – Entendi. Obrigado pelo comentário, José. Então, não é o Edir. Falo de um “filósofo”… rs
A escolha pelo termo ultradireita foi para causar uma certa polêmica e um desconforto mesmo. Mas obrigado pela sugestão. Abraço!
Eu realmente fiquei curioso pra saber quem é o tal “filósofo”. kkk
Na verdade, me veio na cabeça um dramaturgo que faz isso também. Até gosto da pessoa dele e de algumas idéias que ele passa. Mas tem o péssimo hábito de sentar a lenha em tudo que vem e acontece no Brasil, porém estando ele em Manhattan.
Aí é fácil…
Seu texto ía muito bem até o ponto onde envolveu política. Alías, esse negócio de dizer que o PT não é de esquerda é uma hipocrisia sem tamanho, quando a “esquerda” mostra o que é, os “esquerdeiros” negam sua origem, por quê? Sim, o Brasil ainda tem fundamentalismos, preconceitos e blablabla, como qualquer outra sociedade. Qual o problema da direita? Recompensar o trabalho suado com dinheiro ? Ter pelo menos o mínimo de chance de mobilidade social ? Não ter espaço para sustentar vagabundos com dinheiro de impostos recolhidos do bolso dos trabalhadores honestos ? Direito a ter e proteger sua propriedade privada ?
É triste, e ao mesmo tempo bom ver que mesmo pessoas que conseguem pensar tão bem e concisamente como você, podem ao mesmo tempo misturar tudo e distorcer o propósito de um texto tão intelectual e profundo.
Por outro lado, se você considerar o objetivo final da esquerda pode se deparar com políticas realmente perigosas que já se demonstraram ineficazes inúmeras vezes… Além de que o liberalismo moderno, como o austríaco, por exemplo, que incentiva o livre mercado, está longe da “social-democracia” (e as supostas “direitas” Brasileiras) e não pode, dessa forma, ser considerado esquerda/centro.
Eu entendo a crítica ao que foi considerado “ultradireita” mas não posso concordar de forma alguma que “esquerda” seja uma direção a ser seguida sem grandes prejuízos.
O tempo…
Nosso bem mais precioso, e ao mesmo tempo o vilão do qual corremos por toda uma vida.
Einstein concluiu (através da elaboração da Teoria da Relatividade Restrita) que o tempo existe no universo como uma entidade autônoma, ou seja, que o mesmo não é apenas uma percepção decorrente da consciência humana, mas que ele existe no universo com características próprias, e que se ele não existisse o universo seria uma grande sopa cósmica caótica, sem distinção ou ainda sem a existência das forças básicas que o regem. Imagine viver em um universo sem a possibilidade de ordenar acontecimentos e eventos em ordem cronológica-temporal? Muito doido…
***
Falando da ultra-direita, me lembrei do caso do excelentíssimo deputado Protógenes Queiróz, que levou o filho de 11 anos para assistir ao filme “Ted”, o ursinho maconheiro, cuja classificação recomendada é para pessoas maiores de 16 anos, e dizendo-se chocado com o filme, alegando que o mesmo incentivava os jovens a drogar-se e a não terem motivação para estudar ou trabalhar, bradou aos sete ventos que pediria a proibição do mesmo nos cinemas do país. Não sei se ele tem o senso distorcido, ou se foi apenas manobra pra aparecer e tentar “sair bem na foto” da opinião pública. Mas o fato foi que pegou MUITO mal.
Agora me diz aí: falam dos EUA, que são conservadores (e são mesmo), autoritários, etc, mas um filme deste tipo, repleto do “politicamente incorreto” humano, não seria realizado no Brasil JAMAIS.
É isso aí… Em pleno século XXI ainda existem pessoas com postura ultra-direitista.
Pra mim, e pra muita gente, os próprios termos esquerda e direita estão ultrapassados. Claro que sempre haverá posições e discursos de ultra direita e de extrema esquerda, mas eles são simplesmente irrelevantes.
Esquerda não é sinônimo de democracia e nem de avanço. Algum tempo atrás a esquerda tinha ideologia, eram socialistas, comunistas (ou até anarquistas). Hoje são raríssimos os que defendem a extinção do livre mercado, a adoção de uma economia planificada, e a tomada pelo Estado ou pelo “povo” dos bens de produção. Hoje a maioria (vejam bem: maioria) dos que se dizem de esquerda (e acreditam que são mesmo) é composta de gente birrenta reclamando que o mundo é injusto e que a desigualdade é absurda (tudo isso tem seu fundo de verdade), MAS (esse ponto é importante) essa esquerda não tem a menor idéia de como resolver o problema da desigualdade e da injustiça, essa esquerda quer mudar o mundo mas não sabe como.
A esquerda (a de verdade) está em extinção (ainda bem!), sobrevivendo em universidades ou em partidos políticos nanicos sem nenhuma expressão, quando muito, sobrevive também em sindicatos, que cada vez mais perderão sua força, visto que o desenvolvimento (a roupinha nova e descolada que o antigo progresso ganhou) cuidará de tornar os bons profissionais cada vez mais valorizados; já há setores em que as empresas disputam ferozmente seus colaboradores (trabalhadores) – pergunte a um desses qual a importância do sindicato na vida deles.
A direita, no Brasil, é mais rara ainda que a esquerda, sequer há um partido que se denomine de direita, e com razão, pois os mais à direita são no máximo de centro. Não há (quase) mais ninguém que aceite que as pessoas passem fome em nome da “não interferência” do Estado na economia. Quase não há capitalistas que entendam que práticas “keynesianas” não devam ser adotadas em momentos adequados.
A mudança do mar é o que permite que a arte do surf se realize. Mas nenhum surfista pode surfar todas as ondas..
“O tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver.”
Daniel Pennac
Ótimo texto, cada vez mais esse assunto me vem a mente. As vezes receio estar vivendo sem viver…
Muito bom o tema da mesa e muito boa a divisão dos “tipos” em relação ao rumo que o mundo vai tomando.
Essa questão do tempo já foi muito comentada por Krishnamurti em seus diálogos durante as décadas de 60 e 70.
É realmente uma pena não preenchermos o nosso tempo que sobra com algo realmente essencial ao invés de mais trabalho.
Aquela velha estória : “Trabalhar para viver ou viver para trabalhar.”
Yo Teo!
Li sua matéria e os comentários por aqui…
Durante a palestra foram discudidas soluções para aumentar nossa sensasão de tempo livre,e diminuir nosso desejo de querer semre preencher nosso tempo livre com outras atvidades?
Percebo que na fase da infancia,nós aproveitávamos o tempo de forma mais espontanea,enquanto na fase adulta todo nosso tempo é planejado,até as atividades que realizamos em nosso tempo livre parecem guardar certa artificialidade,enquanto as realizamos,pensamos nas outras coisas que poderiamos realizar ou realizaremos depois…
@Teo – Salve, Zero. O professor Rosa, na verdade, acredita que isto é mesmo um processo que não tem volta. Isto é, se a sociedade continuar trilhando esse caminho que ela tem seguido. Creio eu que cabe a nós mesmos aprendermos a lidar melhor com essa nova realidade e procurarmos uma forma em que nos sentimos mais confortáveis dentro dela.
Belo texto para auto-análise e reflexão. Remeteu-me a um livro interessantíssimo (na minha opinião), chamado “O Ócio Criativo”, de Domenico de Masi.
Discordo que a disponibilização de tecnologias, como os e-mails, por exemplo, permitam criar mais tempo livre. Essa é de fato a intenção da tecnologia: a facilitação e consequente aceleraçao de trabalhos/tarefas. Entretanto, tudo ainda depende do usuário, ou seja: se a tecnologia ajudará a aproveitar melhor o tempo ou ser motivo de martírio é um processo que depende de quem usa.
No exemplo de escrever a carta: fazer isso manualmente, nos dias de hoje, é quase um ato ritualístico; a criatura, ao providenciar caneta, papel, ao esmerar-se no conteúdo, já está preparando a carta mentalmente antes, e pondo uma significativa parcela de si ali (eu diria que é quase um ato mágico). É um ato proveitoso, embora moroso para os padrões sociais da atualidade.
No tocante à tecnologia, essa “ritualística” também acontece, mas sequer nos permitimos que isso aconteça, e grande do prazer de usufruir desses recursos se perde…… Exlplico melhor: normalmente, tecnologias como internet e acessórios de informática (por exemplo) estão relacionados ao entretenimento. Enquanto a criatura escreve seu e-mail, sua atenção (e seu conteúdo mental) fragmenta-se enquanto ela dá atenção simultaneamente ao seu Facebok, Twitter, às notícias do dia, ao trabalho escolar/faculdade/relatórios de produção profissional e ao filme online, por exemplo. A mente dispersa-se DESNECESSARIAMENTE (naminha opinião), numa busca de prazeres difícil de refrear, porque a gama de possibilidades é tamanha que o indivíduo quer usufruir de tudo ao mesmo tempo. E a culpa nem é da tecnologia, mas de quem a usa e aliena-se com suas possibilidades.
Por consequência, aquilo que deveria deixar mais tempo livre para o indivíduo aplicar em experiências mais construtivas termina alienando-o, por vezes, e distorcendo até mesmo a forma como ele avalia o mundo. Isso reflete na conduta: quantas pessoas hoje fazem avaliações superficiais (e por vezes errôneas) de fatos e acontecimentos num típico comportamento de “li-na-internet-e-se-está-lá-deve-ser-verdade-porque-lá-eu-tenho-acesso-ao-mundo”?
A forma com que eu tenho conseguido lidar com essa sensação (e comecei a trabalhar isso e refletir faz pouco tempo para não fica doente de ansiedade – literalmente) é justamente tentando controlar essa “tentação” de fazer múltiplas tarefas simultaneamente só porque tenho tecnologia à minha disposição. Não devo ser escravo dela, ela é que deve me servir. (Esse desejo de estar “conectado”, “sintonizado” e “plugado” no mundo a todo instante é forte…). Aproveitar melhor experiências mais “humanas”, como visitar parentes e passar mais tempo com a filha, por exemplo. Desconectando-me mais da internet, e usando-a com calma quando necessário (alguém ai LÊ DE FATO um texto online? Assim, sem correr os olhos por ele superficialmente, mas mentalizando e analisando seu conteúdo,? Faço o desafio…….. Apenas com isso, descobri surpreendentemente que tinha mais tempo livre do que eu imaginava.
E como consequência mais surpreendente ainda, descobri que não sabia nem o que fazer com ele, pois eu achava que nunca tinha tempo…
Nada que a fenomenologia de Husserl e principalmente o existencialismo de Heidegger já não tenha dito, direta ou indiretamente, de forma muito mais precisa, complexa e estética. O tempo como sentido interno, como principal aspecto do eu sintetizador das representações é carne de vaca na filosofia desde Kant e sua dedução do princípio de apercepção transcendental.
Adam: “mimimi estou pagando de intelectual sem conhecer quem to criticando”
Eu acho que a intenção do Igor foi compartilhar a experiência dele, estabelecer alicerces para a discussão do tema e, principalmente, apresentar-nos as idéias e o trabalho de Hartmut Rosa, que eu particularmente não conhecia.
O mais legal talvez seja perceber (e poder discutir) os rumos que as vidas das pessoas estão tomando e poderão tomar devido ao uso indevido do tempo que se dispõe, e o quanto elas tem cada vez menos controle sobre ele.
Se você reparar, a grande maioria de nós mencionou a obra ou pensamento de “fulano”, percebe? Pois bem, o Igor foi lá, viu e ouviu o Rosa expor as idéias dele. Ele não está falando de um livro. Heidegger, Husserl e Kant há muito se foram, e talvez boa parte de nós acharia um porre caso pudesse falar pessoalmente com um deles.
O mito grego de Chronos, antiquíssimo, há milênios sintetiza em essência o que é discutido (e percebido) pelo ser humano com relação ao “tempo”, em esferas social ou individual.
O resto, meu amigo, só quem vive sabe, e cada um entende de forma particular, pessoal. E não tem livro que explique!
@Teo – É isso aí, Pseudo-Cético. Você entendeu bem o espírito da coisa! Abraço.
li esse texto e lembrei d Fotamecus
@Teo – Pois é, eu usei bastante o Fotamecus durante um tempo, mas depois vi que a melhor coisa era parar.
ele realmente fica problemático depois de um tempo? Até agora, as poucas vezes que eu recorri a ele, ou ele não funcionou, ou foi pouco eficiente (coisa de comprimir ou expandir poucos minutos) me fazendo desacreditar dele, o que me levou a pensar em duas coisas:
1 – Minha “vontade”, na falta de termo melhor, não foi suficiente;
2 – Ele não tem mais a força que deveria ter a um tempo atrás;
Eu realmente compreendo que utiliza-lo para resolver problemas pode causar algum tipo de dependência, como uma droga (afinal, ele ta da um “poder” momentâneo e ainda ganha energia para isso), e no fim das contas, algo que era para ser apenas uma forma de gerenciar melhor o tempo se torna no seu mestre.
Mas ainda sim, em emergências, é realmente ruim recorrer a ele?
@Teo – No meu caso foi muito mais uma questão de aprender a lidar com as responsabilidades das minhas próprias escolhas. Se eu estou atrasado para algo, eu tenho que antes de usar o Fotamecus me perguntar: por que estou atrasado? Será que foi por que eu esqueci? Ou por que eu dexei para última hora? Por que eu não estou sabendo me organizar? Se é uma emergência, algo que eu não previa, o que eu podia ter feito para ter evitado que ela tivesse acontecido?
Já viu o filme “Click”? O filme não é um dos melhores, mas ele tem uma bela lição sobre essa nossa mania de tentar controlar essas grandes variáveis. Até porque a gente nunca sabe as consequências exatas de nossas ações até que elas aconteçam…
Olá Igor,
Como semper teus textos são excelentes, mas discordo radicalmente quando você fala em conservadorismo e direita. Veja bem, os conservadores não como pessoas que querem “conservar” o estatus quo atual(nos EUA a esquerda é que é chamada de conservadora), mas sim aqueles que não querem aceitar qualquer mudança, conservadores são aqueles que perguntam “porque fazer isso?” antes de simplesmente sair mudando tudo.
Mas tirando truques linguisticos, vamos a 2 situaões hipoteticas e vejamos quem é reacionario ou conservador:
1.Ao propor a criação de uma ditadura do proletariado, o esquerdista seria um agente da “mudança”, em relação a qual alguém da direita reagiria. Este que reage seria o reacionário do contexto, e também o conservador.
2.Mas quando pessoas da direita pedem a redução dos impostos de 40% para 15%, são os esquerdistas que tentam conservar ostatus quo do estado inchado. Neste caso, os agentes da mudança estão na direita. Se os que reagem à mudança estão na esquerda, nesta questão é ali que temos os conservadores e reacionários.
Sobre a direita brasileira, ela é praticamente inexistente, me responda qual partido é de direita no Brasil? DEM? Por sorte os jovens ñós jovens, estamos vendo que “não existe almoço grátis” e um novo ar esta chegando, como exemplo uso o NOVO, um partido liberal(direita).
Por último mas não menos importante, seja homem e não mande recados, fale nomes(Olavo de Carvalho). E eu acho importante que antes de sair falando que ele é isso ou aquilo, convide-o para 1 debate e lembre-se que ele já botou no chinelo todos os “filósofos” brasileiros, os quais hoje em dia fazem igual a você, ficam mandando recadinhos pela internet sem citar nomes.
Respeitosamente
Josué
@Teo – Caro, Josué. Primeiramente, fico agradecido pelo elogio. Também fiquei surpreso em ser avisado do seu comentário neste texto de 2012! Fazem 2 anos já que o escrevi, assim como meus comentários na discussão que se sucedeu e o suposto recadinho que você critica. É interessante como o conteúdo se mantém vivo e reverberando. Mas também não é para menos. Direita x esquerda é um assunto que vai durar muitas décadas ainda…
Eu escrevi um texto depois sendo mais direto neste assunto. Você já leu? Bem, de qualquer modo, fica aqui recomendado: http://www.deldebbio.com.br/2012/11/24/uma-analise-do-poder/
Sinta-se a vontade para participar de um debate amigável por lá também.
Mas vamos então a suas questões.
Caro amigo, os EUA não é um bom país para exemplo neste assunto, não é? Como discutir esquerda e direita quando uma política mais intervencionista, mas ainda claramente de interesses capitalistas, é taxada por lá de comunismo?
Se a questão crucial dos conservadores deste nosso país é “por que fazer isso?” antes de qualquer mudança social, acho que uma visita à uma favela brasileira é uma boa resposta.
Mas veja bem, seu exemplo até seria bom, se não fosse um pequeno detalhe: redução de impostos não é uma mudança social. Quando a direita pede redução dos impostos, os principais beneficiários não são as camadas mais baixas da população, mas a elite que deseja uma política neoliberal com alta influência do capital estrangeiro. Com certeza não é para beneficiar a sapataria do seu Zé, por mais que a propaganda destes partidários queira nos fazer acreditar nisso. Mudança social se faz com reformas de base, coisa que quando João Goulart tentou fazer, os EUA apoiaram a instauração de uma sangrenta ditadura neste país.
Sinceramente, a direita não precisa de partido. Está mais que enraizada já no senso-comum.
Sobre um debate com Olavo de Carvalho, ultimamente não tenho muito tempo a perder. Prefiro conversar com vocês, discutir ideias com pessoas que de fato estão querendo pensar e construir algo melhor. Estar certou ou errado não é mais importante do que estarmos pensando em alternativas para esse sistema capitalista que só traz opressão e exploração. Além disso, e isso você pode achar um defeito meu, não tenho estômago para trocar meia dúzia de palavrões que não vão levar à nada.
Grato, abraço.